Ha um perfume no ar, um perfume pestilento que sai do cano da espingarda. Na sala de espera do hotel está um homem velho, usa uma farda de funcionário dos correios, vem oferecer condolências ao gerente do hotel pela morte da esposa encontrada morta e pendurada como um amolgado coador no sótão do hotel. O gerente do hotel disse que a policia está a investigar, que naquele caso não há um motivo para alguém matar e que existem todos os motivos para se morrer, o motivo de se ter os pés na terra e a cabeça no ar, qualquer razão é boa para morrer mas nem todas são boas para matar. Muitas perguntas eram feitas e sempre aquela pergunta: A quem interessava o crime?! Matou-se por dinheiro, por amor, alguma loucura, a inconsciência cuspida da boca, mata-se porque a profissão de matar é a mesma de qualquer outro trabalho e na cabeça de quem mata é um trabalho limpo, há-de haver uma explicação para esse macabro crime, uma coisa inexplicável. Aqui vive gente de bem, nao sei de quem suspeitar?! Suspeitar do barbeiro que corta os pelos ou afia descuidadamente a navalha na garganta e logo o sujeito não vai cantar mais a canção que denuncia a tristeza . Desculpe se com isto faço poesia, sei que a poesia se suja com esta historia, não é a poesia suspeita deste crime,
o ciúme acerta mais fundo, penetra com tanta violência como uma bala no crânio de um rinoceronte, na verdade também o rinoceronte pode ser suspeito, tudo o que mexe é suspeito mesmo a folha do nenúfar poisada nas paradas águas.
Estava na hora de servir os almoços, o chefe tinha ido á praça comprar um coador, era noticia no lugar que o ar condicionado tinha avariado, um cheiro podre vagueava por ali, a defunta cheirava a peixe de muitos dias e o turismo era afectado. A equipa municipal da higiene publica estava a limpar o ar, um aspirador sugava as pestilências das narinas daquela pobre criatura.
Desculpe perguntar faz muito que eram casados? lembro-me da voz dela, um sotaque carregado, típico da Baviera. nunca estive por lá, vi algumas fotografias, a respeito da comida não sou grande apreciador, prefiro os pratos Franceses e os vinhos. Sei que escreveu aos seus filhos, a sua filha mais nova está numa escola privada, ensina árabe e álgebra, o seu filho alistou-se no exercito, é atirador. Devem ter ficado perturbados Não ficaram perturbados, ficaram frios e imóveis como a linha vermelha de um termómetro. Sim esta juventude já não se perturba, vivem em constante representação. Está a dizer-me que vieram por causa da herança, não há nada para herdar, umas notas magras, uma professora de musica não ganha muito por isso ela se refugiava no jogo, era um prazer, o prazer é uma expressão tremendamente Francesa, os países frios precisam de saboreá-lo com drama. Vejo que está abatido, antes não tinha duvidas, tem agora muitas, imagina que ela tinha amantes no armário, guardava segredos como se escondem ratos numa ratoeira, acha que ela era infiel, que foi morta por causa de um divida de jogo. Não quero meter palavras na sua boca, as palavras são perigosas e sedutoras, uma bomba que faz saltar muitas exclamações, muitos pontos de interrogação como uma etiqueta. É preciso perguntar ao corpo do cadáver como eram as mãos que lhe tocaram, como lhe tocaram, porque lhe tocaram?
Quero que saiba que no caso de precisar de alguma coisa, posso mandar imprimir uns cartões, uma simples dedicatória eterna saudade e posso ainda encomendar umas flores de plástico e uns óculos três dimensões que fazem parecer as flores muito verdadeiras. Nestas alturas um homem precisa de conforto, uma almofada para descansar a alma nostálgica. Desculpe se roubo o seu tempo, vou regressar aos correios, gosto da humidade do escritório muito agradável neste tempo de calor, há por perto uma videira, costuma trepar pela janela, quando abro a janela parece que me consigo embriagar, uma sensação de regresso ás minhas festas de juventude, ainda tenho fotos, um dia destes mostro-lhe, tenho algumas fotos de família, a minha mulher morreu faz cinco anos, eu pensava que com a solidão tinha morrido o amor, mas agora eu acho que com a solidão se fortalece o amor. Bem espero que tenha um bom dia.
Sinto que o Outono é a estação dos apetites, nos dias de Outono fazia amor mais vezes que nas outras estações, gostava de me sentir nostálgico, ficava parado assim que a modos que inerte a olhar os olhos dela como quem fica a olhar o céu. Num dia assim estou a olhar os olhos dela e ela tem os olhos parados, o coração não bate, está morta. Foi uma paragem cardíaca. Depois da morte dela julguei que tinha perdido a vontade de recomeçar, mas nós somos como a videira que trepa á janela e se dá ao sol, todos os dias olho-a da janela e saudo-a em pensamento, acredito que ela é a minha mulher de braços abertos a exclamar que aquele é o seu corpo e o seu sangue. Sei que na cabeça das pessoas deste lugar há a curiosidade sobre o meu interesse a respeito da morte da mulher do dono do hotel. Na verdade sempre gostei de enigmas, costumo decifrar as charadas dos suplementos dos jornais de domingo, escondo-me no gabinete dos correios e passo lá as tardes, levo uma sandes e um termo com refrigerante fresco. Ontem depois de ter estado no gabinete dos correios passou por mim um grupo de soldados a marchar, acho engraçado parecem bonecos articulados, já imaginou a guerra dos bonecos articulados, era um bom titulo para uma peça de teatro. Está a dizer-me que não gosta de teatro, que a voz de certos actores parece como uma faca a penetrar no estômago, tem alergia ao teatro, eu tenho alergia á impaciência, quando estou impaciente aparecem-me borbulhas, sofro deste problema desde criança. Ainda sobre o caso da morte de sua esposa e por ela tocar piano, pois sei que tinha formação clássica, qual era o seu compositor de eleição?! Ela gostava de Wagner, de facto Wagner podia seduzir um assassino para a musica, talvez fosse essa a ultima musica da vida dela e isso depende da crença de cada um, há uma tribo do norte que acredita que depois da morte nascemos em forma de bactéria para entrarmos no corpinho dos doentes e assim curarmos as maleitas dos que cá ficam, imagine nós sermos transformados em bactérias depois da morte e nascermos vamos supor alguma espécie de queijo, um queijo da ilha por exemplo, essas ideias são de facto malucas, coisas de gente selvagem,lugares onde ainda não chegou a civilização, na verdade a civilização não è um bom exemplo, matamos pessoas com malvada delicadeza, quando somos crianças as vacas a pastar no prado è algo romântico, depois quando olhamos para dentro do talho aquilo parece o holocausto, claro que matamos para nos alimentar-mos e matamos para alimentar o ódio sobre o outro, já me vi com muito ódio a esmurrar a almofada, depois dentro de nos fica um vazio, amamos alguém com a mesma intensidade com que sentimos repugnância, estou a dispersar-me, a filosofia toma conta de mim, todo este meu discurso lhe deve parecer incoerente e nao esclarece a morte de sua mulher, não explica porque tinha ela o corpo cheio de buracos tal qual um coador, seria para o assassino filtrar os seus maus instintos?! Deixo a pergunta no ar, hoje faz muito calor, um calor impróprio da época , há um estudo que revela que com o calor os crimes aumentam, o calor provoca tensão, os criminosos gostam de sangue para se refrescarem, ouvi a história que conta que o Marques de Sade se lavava com sangue, tinha uma preferência por cabidela, já provou arroz de cabidela e que tal, bom não é? A minha mulher preparava o melhor arroz de cabidela do universo, vai deliciar as hostes celestiais, era um bom titulo para um filme, os anjos comem arroz de cabidela. Desde que transformaram os cinemas em igrejas deixei de ir, não gosto dos centros comerciais, apanhar com a brutalidade daquele som digital nos tímpanos, na minha idade a audição já não è o que era, o ouvido esquerdo, o ouvido das más noticias está completamente surdo, mas voltando ao assunto sobre a morte da sua mulher, sabe qual foi o resultado da autopsia? - Está a dizer-me que não foi encontrado um autor para o crime, não encontraram impressões digitais, que uma mão invisivel levantou a espingarda, premiu o gatilho e transformou aquele corpinho num coador manchado de sangue como se fosse polpa de tomate a salpicar os fios de esparguete, ainda a respeito da morte da sua mulher e da natureza desse hediondo crime o mesmo me lembra aquela pintura da Frida, aquela artista mexicana, a mulher de Diego Rivera, um tipo gordo e comunista, estaria mais na natureza dos comunistas serem magros, a magreza seria uma forma de o corpo representar a fome das classes oprimidas pela gordura capitalista, ainda a respeito da Frida kallo há uma pintura dela que podia ilustrar o crime de que foi vitima a pobre de sua Senhora. Estou a pensar vir almoçar aqui, reserve-me uma mesa no jardim, perto do lago, enquanto como gosto de ouvir o som da água, quero saborear um peixe grelhado acompanhado por um bom vinho, por volta da uma estarei por aqui.
Naquela tarde veio novamente a policia, era um grupo da policia cientifica que vinha recolher novas amostras de sangue das paredes, aquele sangue parecia como a tinta das pinturas rupestres, sabia-se que o sangue era rhnegativo, o sótão onde o tal crime tinha sido praticado se parecia a um lugar do submundo, havia recortes pessoas torturadas e cenas do mais obsceno teatro, a mulher do dono do hotel tinha tocado em cabarés e até em prisões para confortar os condenados á morte, é possível que nestas horas os pobres fiquem com o gosto musical mais apurado, nestas situações os homens e as mulheres ficam mais perto da condição animal, a cara de um homem é o focinho de um porco. O céu que parecia cinzento reflectido dos olhos dos que são marcados por estes momentos voltava a ficar azul, a vida que trazia a morte era agora a vida que se reconstituía no novo ar marcado pelo poder do nosso trabalho, das nossas convicções, as nossas convicções são como a força dos barcos empurrando a água, mesmo que seja suja, é a nossa vontade que limpa, é o nosso querer que repõe a ordem mesmo quando precisamos da desordem para a sobrevivência do nosso ser. A mulher do dono do hotel tinha um rosário de cento e oito contas, um objecto comprado num antiquário em Viena, um homem ateu mas devoto incondicional do Deus dinheiro. A propósito do Deus dinheiro e do vicio que ela tinha ao jogo, quando a via a passear no jardim girando a sua sombrinha me lembrava a roleta de um casino e pensava que talvez ela transporta-se um numero mágico, parece que era possuída por um numero fatal, há um momento que nos vai cair a desgraça das escadas abaixo por mais azul que o céu se levante acima dos nossos olhos, reparei que ela tinha um andar leve, como será o andar da morte sobre a nossa pele?! Antes do almoço vou desentorpecer as pernas, o meu médico aconselhou que fizesse muitas caminhadas, que evitasse as gorduras, o colesterol é como um assassino em serie, vou provar como já disse um peixe grelhado com um pouco de manteiga por cima, depois vou fazer a sesta, gostaria de me deitar á sombra de uma macieira e sentir o bicho da fruta a andar-me nos olhos, ter a memória povoada de coisas da adolescência, se ainda me apetecer faço aqueles enigmas, este caso da mulher esvaída em sangue e cheia de buracos como um coador é um quebra cabeças que hei-de solucionar. Naquela tarde o funcionário dos correios dormiu um sono pesado, um sono sem sonhos e sem insectos a passear na ponta do nariz, acordou como se o céu tivesse a infância que ele procurava, a madrugada sorria para eles nos olhares que com ele se cruzavam, caminhava em direcção ao hotel, o dono não estava por lá, aos domingos costumava ir pescar, era um exercício de paciência, atirava o que pescava de volta, atirava a impaciência ao rio, se pudesse premia o gatilho e fazia saltar os miolos daquela cabeça impaciente. O funcionário dos correios sentou-se numa mesa situada no jardim, uma toalha de linho cobria a mesa, lembrou-se quando esteve de férias num pais em guerra e de uma explosão numa praça publica,, a toalha de mesa do café ficou tingida de vermelho, se parecia ao sangue da guelra do peixe, parecia o sangue que jorrava da guelra do mundo. Enquanto saboreava o peixe observava os empregados com os fatos muito vincados, olhava-os e olhava a sua gravata, não tinha muita habilidade a fazer o nó, habitualmente era a mulher que lhe fazia o nó da gravata. Entretanto chamou o empregado de mesa e pediu a conta, ele e o homem falaram um pouco sobre o caso da mulher do dono do hotel, para o empregado aquele crime parecia coisa dos filmes ou quem sabe de criaturas de outro planeta, talvez ela gostasse de jogar á roleta com os Marcianos, talvez aquele corpinho transformado em coador tivesse sido cometido por um artista contemporâneo, havia um artista germânico que usava carne putrefacta para fazer as suas esculturas. O Funcionário dos correios levantou-se, saiu para a rua e seguiu até ao edifício dos correios, olhou mais uma vez a videira que trepava á janela do seu escritório, parecia a imagem de uma escultura grega, veio-lhe á ideia a imagem de uma escultura putrefacta, a visão clássica do mundo futuro. Por aquela altura lembrava-se ele de ter andado por ali uma companhia de circo ambulante, um dos números em destaque era o do lançador de dardos, havia aquela parte em que o atirador tinha os olhos vendados, a tal companhia estava de novo instalada na praça, a policia tinha um suspeito segundo uma noticia publicada no jornal vendido exclusivamente na drogaria do bairro e que servia para embrulhar a mercadoria, o atirador de facas tinha um caso secreto com a mulher do dono do hotel, nas conversas de rua ironizava-se que ele tinha treinado a despontaria no corpo dela, que aquele caso era de faca e coador, a policia interrogou o sujeito que á hora do crime disse estar a tomar um banho com muita espuma e que tinha tido com ela um romance sem importância, uma novela pobre como o destino , a policia quis uma amostra do ADN, saber se o sangue encontrado no sótão correspondia ao dele, o atirador mostrou-se disposto a colaborar, no dia seguinte deu corda aos sapatos e nunca mais ninguém soube nada dele, a policia enviou comunicados por toda a parte, mandou patrulhas cercar as estradas e nada de nada, o atirador de facas possivelmente vagueava por algum estranho lugar ou planeta ou outra opção seria andar ele por terras da China com outra cara graças a uma operação plástica na figura de um turista Americano, chegar a ele era como chegar ao sol. O dono do hotel aproveitou ainda a tarde para visitar a filha, levava com ele uma caixa de costura da falecida onde ela guardava botões coloridos, linhas e bocados de tecido de padrões diferentes que ele comprara numa velha retrosaria. A filha tinha uma paixão por aquela caixa, se por um lado se inclinava para o valor material dos objectos por outro ainda salvaguardava o valor sentimental, ainda conservava um certo modo de vida ,romântico. o olhar dela era austero, parecia que dos seus olhos pretos saiam raios, falava monocordicamente. perguntava sobre os negócios do hotel. O Senhor Simões que era assim que se chamava o dono do hotel olhou para o relogio e despediu-se da filha, não queria voltar muito tarde para casa,não gostava de conduzir de noite embora de noite haja o encanto de se verem os coelhos e as raposas, também tinha de estar no hotel para organizar a ementa do hotel, ir ao mercado comprar legumes frescos e dar um salto á lota para encontrar bom peixe. Quando chegou havia um carro da policia estacionado perto Quando chegou havia um carro da policia estacionado perto. Um agente de oculos escuros e cabelos grisalhos aproximou-se e entregou-lhe um cartão com a morada do posto da policia, estivesse lá quinta feira por volta das duas. Naquela tarde no gabinete do tal agente a conversa andou á volta da suposta relação entre o atirador de facas e a mulher deste e se ele sabia deste falatorio popular, se alguma vez achou estranhou o comportamento da vitima, as pessoas comentavam que a comunicação entre ela e ele era como um pedregulho a cair sobre uma flor, havia quem andasse a espalhar que ela sofria maus tratos, de certo que não se devia acreditar em tudo o que se dizia , tudo devia ser devidamente investigado com rigor, a policia suspeitava que aquele crime tinha sido encomendado mas faltava no puzle uma peça, fazer a ligação entre o dono do hotel, e o atirador de facas, procurar o verdadeiro motivo do crime, alguem usara a expressão facada no matrimonio muito a serio
Voltei ao tempo do rio, ao tempo em que o rio se ajoelhava como um imperador inclinado aos teus pés. Ainda tens na tua memória aquela expressão o rio está á porta, agora os teus olhos parecem rebanhos a pastar na margem das tuas recordações. Abres a caixa de costura e escolhes um botão para pores na tua saia azul. Regressaste da tua viagem à casa dos teus pais. A tua mãe que tinha a profissão de fazedora de bolos agora vende caixas de plástico da tapawere , a tua mãe é um agente secreto, a tua mãe anda metida no terrorismo das caixas de plástico, ela anda toda pintada, tem os olhos carregados. Desde que o teu pai morreu que ela carrega na pintura, que foi duas vezes à discoteca e apanhou uma valente bebedeira. Tu ficaste preocupada com ela, querias protege-la como se ela fosse porcelana, imaginaste que uns homens maus, uns marginais iam abusar da tua mãe. Tu não és uma gaja conservadora mas acontece aquela fase em que queremos ser o rei do nosso rei. A tua mãe também usa as calças rasgadas e anda a aprender danças de salão, o seu par é um Argentino de meia idade que depois das aulas convida a tua mãe a beber chá preto enquanto ele saboreia o seu rum com limão e começa a contar-lhe o azar dele com as mulheres, que gostava de levar a tua mãe para a Argentina, que ele era dono de muitas terras mas que gostava de possuir o céu dos olhos dela, ele a dizer isto numa conversa fiada a tua mãe a escutar com muito interesse e a interrompe-lo com um; e depois? Ela a ficar com os olhos arregalados como uma criança que só com os olhos faz derreter um gelado.
Estás a arrumar o quarto, o quarto acumulou alguma poeira, passas os dedos no chão nos moveis, fazes um traço de poeira e tens um arco íris e tens uma aranha gigante a contemplar o teu arco íris, a comer gulosa essa poeira acumulada nos moveis, nos livros, nas arcas. Pensas em piratas, achas que a tua mãe encontrou um pirata Argentino, que um dia ele a vai empurrar, que ela vai cair no poço ou cair nos braços, se os braços forem de apertar e de dar calor. Mas tu não confias nesse Argentino, mas tu que tropeças-te nas próprias pernas, que acertaste umas coisas e falhaste outras. Se a tua mãe se apaixonar, o bonito, o verdadeiro dessa paixão é não desistir, mesmo que seja engano a água pura continua a ser pura e se ela tem sede mesmo que a água seja imprópria a sede dela e a á gua que h á nela, a verdadeira intenção não a pode magoar ou perder. Gostavas de ficar sentada junto ao rio, parece que o rio não envelheceu, não lhe encontras uma ruga. Fizeste trinta anos e parece que te sentes com a idade de Abraão. Começas a sentir vontade de criticar tudo e todos, gritas, perdes a paciência, choras até transbordar e nessas alturas tenho medo de te tocar e ao mesmo tempo não quero ficar indiferente, talvez arranje um pretexto, perguntar-te como vão de saúde os teus bichos da seda. Sei que perguntar isto é um disparate, j á não tens idade para coleccionares bichos da seda, mas isso da idade, sim a idade é mais um peso na balança ou cada qual rouba no peso, seja como for quando estás assim difícil de descrever é melhor não te fazer estremecer.
O velho Argentino e a tua mãe juntaram os trapos, a tua mãe sabia que ele era um malandro, mas o mundo com as suas guerras, os seus crimes, os seus casos de corrupção também é um malandro e nós sempre acreditamos que o mundo vai mudar, que h á uma parte dele que faz sonhar. Carlos o amante da tua mãe conquistou-a com o perfume das orquídeas, nunca ninguém lhe ofereceu orquídeas assim. Tu foste ao casamento deles, foi um casamento civil, o copo de á guafoi l á na colectividade, foi uma cozinheira velha também Argentina que confeccionou a comida. Tu provaste pela primeira vez comida argentina, conhecias a musica de Piazola, o futebol do Maradona a banca rota, tu j á sabias que aquele amor era pobre, ele tinha uma pequena reforma e algum dinheiro que tinha conseguido no jogo. A tua mãe sabia que o seu D. Quixote era um batoteiro, a tua mãe amava aquele batoteiro, gostava do cheiro a rum das suas roupas. O teu padrasto estava sempre bem disposto, a tua mãe gostava de comparar ele ao teu pai,. Entre vinte anos a ser parte da decoração e agora ser a devoção de um pobre Argentino. Ele gostava dela, Carlos escrevia poemas de pé quebrado, poemas de amor e salsa. Quando ele lia aqueles poemas a tua mãe sentia-os como se fossem os melhores poemas do mundo, ele próprio se gabava deles, que a tua mãe era a única que os compreendia. A tua mãe ficou com ele metade dos anos que esteve com o teu pai. Ele Carlos o batoteiro romântico não conseguiu fazer batota com a morte. Os últimos meses da vida dele passou-os a confessar-se á tua mãe como o ladrão arrependido das escrituras. Se a tua mãe tivesse um sorriso tão forte capaz de abrir um buraco na terra, capaz de o trazer de volta á vida.
A tua mãe passa horas a falar dele, agora dorme na sala porque julga que o espirito dele anda a vaguear no quarto, ela também ouve o barulho do baralho de cartas a bater na mesinha de cabeceira. Tu queres levar a tua mãe ao medico, os vizinhos acham que devias levar a tua mãe ao centro espírita, que j á houve um caso de um espírito bêbedo que dormia nas escadas, era o espírito de um marido que em vida só conseguia declarasse bêbedo. Tu achas os teus vizinhos umas criaturas malucas embora desejasses perguntar se era possível comunicar com a alma dos bichos da seda, saber se eles tinham mensagens do alem para ti.
Tu decidiste não levar a tua mãe ao médico, nem leva-la ao centro espírita. A tua mãe não vai atacar ninguém na rua, a mania da perseguição vai passar-lhe.
lobo
As palavras não servem o corpo. Não existem deuses , nem criaturas nuas com as roupas espalhadas no dorso dos cavalos. Não esperes a perfuração da faca nos olhos do tempo, nem tragas gestos demasiado simples para o fogo da espera. Haverá outro caminho, labios cerrados para legitimar a terra, ela e os homens o mesmo cansaço, a mesma lua sobre os telhados, a musica comum do que estão aprendendo a conhecer-se.
Já senti a chuva na nuvem da palavra
a sombra moldando a fruta
e o gesto sem limite
na equação do simio.
Já aplaudi o time
dei fogo no peito profundo
tive o amor mais sublime do mundo.
Já senti a sombra
na curva cortante da faca
apanhei o amante na estrada
no impérioda carne fraca
Já senti a chuva
na nuvem da palavra
a sombra moldando a fruta
e o gesto sem limite
na equação do simio
Atravesso o espelho do corpo
o muro do corpo
o porto dos olhos
dos olhos puros do mundo.
Atravesso o espelho do corpo
o sonho do corpo
o lume dos olhos
dos olhos cansados do amor.
Atravesso a estrada
a madrugada, a madrugada do corpo
do corpo embriagado da noite.
Atravesso o espelho do corpo
o muro do corpo
o porto dos olhos
dos olhos puros do mundo.
Acordo... este é o tempo da paixão. As vozes da rádio, as paredes húmidas da casa e nós inventamos alguém para dançar. Julgo nunca ter escrito um diário , é possível escrever de diferentes maneiras. Quantos modos de voar existem, quantas respirações. Gostava de saber escrever cartas. Quando recebia alguma carta era como o começo de um novo amor. Abrir uma carta tem uma ansiedade parecida aquela quando tiramos a roupa para aquela primeira vez em que íamos fazer amor. No abrir da carta e no despir do outro que se vai revelando. O outro está escondido, ele é a nossa carta, nós abrimos essa carta cuidadosamente. A precipitação pode fazer explodir a nossa vida, aqueles elementos que fazem bater o coração, esses que mesmo parecendo desnecessários fazem falta a esta energia, á compreensão que serve para chegar aos outros. Não existe o falso momento, todos os momentos são verdadeiros, se os rejeitamos podemos ir á outra margem e recuperar fôlego para a existência. Tenho admiração por todos os poetas e até por aqueles que não o são, encontro em todos eles uma história para contar, uma viagem para fazer. O cheiro do papel, da cola a escorrer nos dedos, que sensação! Lembro-me dos dias de sol, de estar sentado nas escadas, de olhar a videira sobre o brilho solar dos meus cabelos louros e nesta abstracção eu profetizava que um dia havia de chover vinho. Nesse instante esperava o carteiro, todas as semanas ele me trazia o mundo de aventuras. Nunca mais soube nada do capitão América, gostava de lhe perguntar coisas sobre a morte. É possível que o grande poeta, o grande Pablo Neruda que um dia chegou á minha infância ainda a começar no meu corpo adolescente e como um vento que sopra soprou uma canção desesperada. O desespero faz-nos começar as coisas, o desespero força o maior dos empreendimentos. Acendemos o nosso fogo interior, que não se move, que não alimenta nada e depois o desespero é como se a própria morte encontra-se forças para a vida. Penso na pobreza dos poetas, a solidão deles como se eu lhes tocasse o corpo no evocar das palavras que digo, essas que perfuram as raizes e fazem o sangue escorrer. Meus poetas é esta a minha declaração, o pão e o vinho e que coisa seria a vossa inspiração sem essas misérias?! Esses rostos magros e pálidos que a fome mostra e vós que andais no mundo da carne, da luminosa carne, dessa paixão podre e primaveril vos digo que há a suprema confiança, a construção da felicidade para a superação da morte. A imortalidade do capitão América provoca-me angustia, não lhe encontrar uma ruga, não sentir nele um cheiro a corpos caidos, derrubados pela fragilidade, gostava que o capitão América tivesse o poder de fracassar para fazer a tentativa de conquistar o mundo pela incerteza. Perguntas a direcção do mar, também a mim me apetece fugir dos homens. Antes o teu coração era forte. O teu coração estava preparado para a imprevisibilidade dos segredos.
Tento encontrar o caminho das coisas inuteis. Porque quero regressar a essas coisas sempre pela mesma estrada?! As coisas inuteis onde estão? Que contradição dizer-se que o ceu azul pode ser profundo e inutil. Neste estado
Este ser guardado em qualquer parte, a pedra cortada sobre os veios das mãos. Perguntas o que é que anda sobre as águas, a que se parece o ladrar do cão quando o silêncio anda nas casas.
Este ser guardado em qualquer parte, o dia tão limpo e o teu corpo tão sujo. E tu perguntas a proposito de uma antiga demora o tempo que a terra leva a chegar ao corpo.
Ainda não se consegue imaginar o que isto tem a ver com a morte.
O estado da água
essa mistura que pões na boca
a terra mais o cansaço e depois o grito, qualquer coisa que levamos ao corpo
para sentir que acordamos.
O estado da água
essa mistura das mãos nos olhos e depois nos escondemos
e nos destapamos como é costume observar nas aves.
O estado da água, essa mistura que o tempo leva aos lábios e depois o grito, qualquer coisa demasiado imaginada.
O estado da água, essa mistura que pões na boca, a terra mais o profundo gesto, qualquer coisa ainda mais apetecivel que a previsão de descobrir qualquer coisa mais dentro dos olhos.
O estado da água
essa mistura das mãos nos olhos e depois nos escondemos e nos destapamos como é costume observar nas aves
lobo 08
Personagens: Madalena, Juan , A velha Alba, A velha Maria de Jesus, A velha rosário , A velha Júlia .
Madalena dirigindo-se a Juan .
Madalena - Sai de cima do telhado
Juan - mãe o céu cheira a alecrim
Madalena - Vêm para a mesa!
Juan desce do telhado e corre para ela.
Madalena - Mostra-me as mãos.
Juan mostra as mãos.
Madalena Estão sujas
Juan - É do fumo, sabes mãe os aviões cheiram ao alecrim.
De repente batem à porta.
Madalena - Vou ver quem é.
Madalena entre abrindo a porta.
Madalena - Querem entrar pergunta ela olhando as quatro velhas coladas umas á s outras.
Velha Alba - Não conseguimos acender o fogo.
Velha Rosário - Nem conseguimos mexer os dedos.
Velha Maria de Jesus - Nem nos conseguimos benzer, ficamos na parte em nome do pai e o braço fica preso.
Madalena - Fiquem perto do fogo.
A velha Alba apontando o olhar a Juan .
A velha Alba - Que fazias em cima do telhado?
Juan - Esperava.
Madalena - Ele imagina que em cima do telhado consegue ver o mar.
A velha Alba - E que esperas?!
Juan - O regresso do meu pai.
A velha Julia - Podes cair.
Madalena - Ele tem a agilidade de um pirata.
Juan - Mãe os piratas cheiram ao alecrim?
A velha Maria de jesus - Essas criaturas cheiram ao fogo do inferno.
Juan - Estas velhas são tão tristes!...
Madalena - É o medo.
Juan - Por causa do medo ficamos tristes?
A velha Alba - Madalena h há quanto tempo o teu homem anda no mar?
Madalena - H á muito tempo.
A velha Alba - E desde então algum homem te cheirou.
Madalena - Por aqui cheira a agoiro.
A velha Julia - Rezar em latim afasta o agoiro.
Madalena - O agoiro são vocês.
A velha Maria do ros á rio - Nós?!
Madalena - Saiam!
As velhas vão saindo coladas umas á s outras.
fim do primeiro acto.
Mãe e filho frente a frente.
Juan - Mãe e se eu fosse um p á ssaro!
Madalena - Que fazias se fosses um p á ssaro?!
Juan - Sobrevoava o mar de uma grande cidade.
Madalena - Que p á ssaro gostavas de ser?
Juan - Que p á ssaro achas que eu puderia ser?
Madalena - Uma garça.
Juan - Gosto de dançar, quando estou no telhado imagino que sou aquele bailarino russo e que dou saltos no ar. O bailarino russo é um p á ssaro.
Madalena - Quem é esse bailarino russo?
Juan - É um voador, olhe esta fotografia.
Madalena - É muito masgro .
Juan - Se eu treinasse talvez conseguisse voar.
Madalena - Andas pensativo!
Juan - Penso no pai
Madalena - Vai voltar
Juan - Quando?!
Madalena - Quando apanhar peixe suficiente.
Juan - Vai tirar peixe da barriga do mar?
Madalena - É isso.
Ouvesse o sino da igreja.
Madalena - Agora o vento est á mais forte.
Juan - O vento é quem guia os olhos dos apaixonados.
Madalena - Vou espreitar pela janela.
Juan - A velha Maria de Jesus dirige-se para aqui, est á a benzer-se, agora parou. É louca.
Madalena - Agora est á a ajoalhar-se .
Juan - Estão cães á volta dela.
Madalena - Os cães vão aquecê-la.
Juan - Ou comê-la
Madalena - Vai l á fora e tr á la para dentro.
Juan arrasta a velha Maria de Jesus.
Madalena - Devagar podes quebrar-lhe algum osso.
Maria de Jesus - Venho em missão.
Juan - Mãe a velha est á louca!
Maria de Jesus - Tens o diabo no corpo.
Juan - Conheço a formula para afastar velhas beatas; é a formula do sacudir dos pés.
Madalena - Que missão é essa?
Maria de Jesus - Limpar os maus espíritos.
Madalena - Onde estão os maus espíritos?
Maria de Jesus - Nas tabernas.
Madalena - Isto aqui não é nenhuma taberna.
Juan - Ninguem anda a misturar enxofre no vinho.
Maria de Jesus - Vamos cantar em latim para afastar o mal.
Madalena - Cantem em vossa casa!
Maria de Jesus - A nossa casa é fria como a morte.
Juan - Vou subir ao telhado.
Madalena - Que fazemos com estas loucas?!
Juan - É um pesadelo dificil de descrever.
Maria de Jesus - A mana Alba j á tem noventa anos.
Madalena - Que faça bom proveito.
Maria de Jesus - A pobre não consegue andar.
Madalena - Mas consegue mexer a lingua.
Juan - E os cotovelos.
Madalena - Queremos ficar em paz.
Maria de Jesus - Escutem o doce cantico!
Juan - A cantar desse modo afastam qualquer santo do bom caminho.
Juan sai de cena e termina a segunda parte.
Deitada perto da lareira est á a velha Maria de Jesus.
Madalena - Est á a dormir
Juan - Parece tranquila.
Madalena - Escuta...
Juan - O apito de um navio.
Madalena - É um navio de mercadorias.
Juan - Que coisas trás?
Madalena - Que imaginas que possa trazer?!
Juan - A canção do regresso.
A velha maria de Jesus começa a acordar.
Maria de Jesus - Olho as rugas das minhas mãos e lembro aquele tempo de nova, eu tinha aquele desejo de partir os vidros das janelas, de quebrar as fechaduras das portas...
Madalena - Desejava liberdade.
Maria de Jesus - Apaixonar-me como o rouxinol se apaixona pela canção dos homens.
Madalena - É um pensamento bonito.
Juan - Você era namoradeira!
Maria de Jesus - O nosso pai, o velho general não gostava de liberdades.
Juan - O amor é uma liberdade responsavel.
Madalena - O meu filho é um filosofo.
Juan - São pássaros que sobem ao meu pensamento
Maria de Jesus - Agora parece que é tarde.
Madalena - Porquê?
Maria de Jesus - Estou confusa, apetece-me pecar.
Madalena - O pecado cheira ao alecrim.
Juan - Mãe os olhos dela são escuros.
Madalena - Ela tem uns olhos bonitos.
Maria de Jesus - Há muitos anos eu vi Deus no corpo de um homem, chamava-se Afonso.
Juan - Há um rei que se chama assim.
Maria de Jesus - Ele era guarda águas e eu uma guardadora de silencios.
Madalena - Você nunca se declarou?
Maria de Jesus- Tinha medo do meu pai.
Madalena - E que lhe aconteceu a ele ao Afonso?!
Maria de Jesus - Apanhou uma febre
Juan - Mãe existe a febre do alecrim?
Madalena - Achas que apanhou a febre do alecrim?!
Juan - Vou sair.
Madalena - Veste um casaco.
Juan - Vou na biblioteca, tem lá um livro daquele bailarino russo.
Madalena - Não voltes tarde.
Maria de Jesus - Já não tenho frio
Madalena - Agora está menos.
Maria de Jesus volta a olhar as mãos e termina a terceira parte.
Ouvesse o barulho de cães a ladrar.
Madalena - Parecem esfomeados.
Maria de Jesus - Antes eu fazia as minhs orações como um animal esfomeado, tinha fome de virtude e de castidade, mas era um engano.
Madalena - Parece que os cães acalmaram.
Maria de Jesus - Quanto mais perto estamos da morte mais faz sentido a revelação da verdade.
Madalena - Em que parte do mundo anda a morte, nunca a descobri nos livros de geografia.
Entra a musica de Astor Piazola.
Madalena - Gostaria de vestir o meu vestido mais colorido.
Entra Raul o homem de Madalena, ele é uma representação da sua imaginação.
Raul - Convidei estes musicos.
Madalena - Estou nervosa.
Raul - Seguro nas tuas mãos e são os meus olhos que te guiam.
Madalena - Porque demoras-te tanto tempo?
Raul - Agarrra as minhas mãos!
Madalena - Estão quentes como eram na primeira noite.
Enquanto dançam os musicos comemoram com champanhe.
Raul - Com o nosso melhor vinho havemos de regar o nosso melhor peixe.
Madalena - Pareces um cavaleiro andante!
Madalena desperta do seu sonho.
Maria de Jesus - Mulher estavas a falar sózinha?!
Madalena - É para o fogo não se apagar.
Ouvem-se passos
Madalena - É o meu filho, quando escuto os seus passos parecem os passos do pai.
Maria de Jesus - Já lhe contas-te?
Madalena - Que coisa?!
Maria de Jesus - Que o pai dele já não volta.
Madalena Depois do naufrágio nunca encontraram o corpo.
Maria de Jesus - Ele será sempre encontrado nos teus desejos.
Madalena - Venha sentar-se perto de mim.
Madalena abre uma garrafa de vinho.
Maria de Jesus - Não contes ás minhas irmãs
Madalena - Beba!
Maria de Jesus - É doce
Madalena - E é forte
Juan entra e apoia as mãos no ombro da mãe.
Juan - trouxe aquele livro do bailarino russo.
Madalena - Vem para perto da luz.
Juan vai-se aproximando, á medida que se aproxima a luz vai diminuindo e fica escuro.
Os ratos já não gostam de queijo.
Cego - Os ratos já não gostam de queijo.
Barqueiro - Onde quer ir?
Cego - A babilónia fica longe?
Barqueiro - Apenas quinhentas braçadas.
Cego - Quer que leia o resto do poema?!
Barqueiro - Leia para a água.
Cego - A água mexe.
Baqueiro - São os ratos.
Cego - Doem-lhe os braços?
Baqueiro - É como amassar o pão!
Cego - Apetece-me um cigarro.
Barqueiro - Os meus cigarros parecem velhos como os ratos.
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