Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2006

...

Começamos muito cedo esta viagem para fora do corpo…são tristes as primeiras noticias de um caça-bombardeiro a golpear velhos, crianças e mulheres, varrendo como faz o vento e como se isso fosse a palavra do Deus da vingança. O homem chamasse Cláudio: É fotógrafo de um jornal francês e dentro de algumas semanas vai ser enviado para a frente de batalha. Vão se escutar as metralhadoras, os flash, o salpicar das pedras, o correr das galinhas, o medo silencioso vai espreitar ás janelas. Cláudio anda de vizita pela cidade de Lisboa, vai ficar algumas semanas, depois partirá, partirá quando forem cinco da madrugada. Na mala de viagem vai levar uma garrafa de vinho do porto e um molhe de postais para enviar á ex. Mulher e aos filhos. A máquina fotográfica não faz sangrar, pode abrir nas cabeças dos senhores da guerra uma glória, uma publicidade… a comunicação social está mostrando o poder da guerra, a impunidade. Os velhos, as crianças, os milhares de vidas são uma rotina necessária para enriquecer os senhores da guerra, os senhores da informação, o cidadão ávido de se tornar um criminoso passivo sentado no seu sofá, esperando a comida e abusando da mulher e a encher-se de vomitado e de uma falsa indignação, o seu pobre coração pode parar, tem lágrimas nos olhos, grita a perguntar quando vem a comida.
- Gosta desta cidade?
- Não percebo.
- Fala inglês?
- Sim… mas sou francês
- Eu das ilhas…
- Você é do atlântico!?
- Tenho mar por todos os lados, as pessoas cheiram-me a mar, o vinho que bebo, o tabaco que fumo. Chamo-me vicente.
- Cláudio, muito prazer.
- Muito prazer. Sou fuzileiro, alistei-me como voluntário para servir nas terras do petróleo.
- Você é um pescador de dinheiro…
- E você que guarda nessa máquina fotográfica?
- Segredos de amor.
- Você é um pescador de mentiras.
- Sou.
- Vou andar um pouco pela cidade, ouvir musica, ver mulheres, contar-lhes as minhas façanhas, esmurrar uns tipos.
- Que tipo romântico você me saiu!
Nessa noite Cláudio seguiu na direcção do hotel, a lua seguia-o e ele começou a trautear uma canção, trauteava tão devagar como devagar era o seu caminhar.
- Está frio disse ele a imaginar-se a falar ao céu.
- Senhor quer que chame um táxi?
- Não é preciso
- Não tem medo dos ladrões?!
- O mundo está cheio de guerras e de ladrões
- O meu irmão bate e rouba a minha mãe, é uma guerra… o meu pai não trabalha e o meu irmão tem aquela doença dos maricas.
- Tens fome?
- Não
- Eu ando com muito apetite.
- Apetece-me um sumo de laranja.
- Vamos beber um sumo de laranja fresco!
- Quanto tempo vai cá ficar?
- Vou ficar mais dois dias.
- E depois?
- Depois vou até ao Sudão.
- Onde é que isso fica?
- Fica em África.
- O meu irmão quer ir para Africa como militar.
A minha mãe diz se ele fosse, acabava o inferno lá em casa, talvez ganhasse juízo, ele podia mandar dinheiro de lá para nos matar a fome.
- Sabes morre-se de guerra e de fome.
- Este sumo de laranja está saboroso, parece o pôr de sol.
- Ainda não te perguntei o nome.
- Chamo-me ardina, acho que é alcunha, dizem que falo como um vendedor de jornais.
- Como é que sabes falar francês?
- Foi com um tipo amigo do meu irmão.
- Ele ensinou-te francês?
- Ele era francês.
- Também presto favores aos turistas.
-que favores?
- Faço certos trabalhos por comida.
- Que trabalhos?
- Trabalho para ganhar dinheiro.
- Explica-me.
- Olhe, tenho de ir.
- Acaba o teu sumo.
- Você está aborrecido?
- Não
- Se olhar o mar vai sentir-se bem. O mar afoga tudo.
- Até amanha.
- Até amanha.
Cláudio seguiu ao longo da praia, a noite cheirava ao podre do peixe e a cola de sapatos. Ao longe havia uma fogueira acesa e á volta estavam alguns putos. Ele pegou na máquina e pediu ao mar um sorriso, naquela noite não conseguia ver o azul que o vestia, sabia ao olhar aquele fogo que certas coisas ele não queima, ou que talvez a memória tenha esse poder, o poder de fingir esquecer. O miúdo que ele conhecera era um prostituto e também ele se sentia um pescador de vidas, lançava o flash a águas alheias e pegava soldados, gente solitária, mentiras tão grandes e pesadas como o tamanho da dor que não se quer viver. Ia beber mais vinho, escrever no seu bloco de notas tudo o que fosse capaz, quem sabe se aquele dia não podia ser toda uma vida, se fosse possível que um único prazer justificasse todas aquelas vezes em que o jogo fosse sujo, em que a condição humana fosse rastejar perante a indiferença e o desrespeito da terra. Entrou no mesmo bar que já conhecia antes, aproximou-se dele o jovem fuzileiro.
- Sabe uma coisa
- Não sei.
- Eu era capaz de beber o mar todo.
- Eras?!
- Quando a minha boca bebe o sexo da minha puta, parece que tomo o salgado do mar.
- E como se chama ela?
- Mariana.
- Esse nome tem mar
- Os olhos dela são grandes
- O significado da minha vida é que está a ficar pequeno.
- Deve ser o amor…
- Como defines o amor.
- Na vida ou no amor é melhor andar de olhos fechados.
- Já que a vida nos engana o melhor é enganar o amor.
- Vou contar-lhe uma coisa.
- Ando fugido
- Andas fugido?!
- Estou com problemas…
- Que problemas são esses?!
- Assuntos antigos, devo dinheiro a um passador. Estou ameaçado de morte.
- Que queres fazer?
- Talvez embarcar no primeiro navio e voltar ás terras do petróleo.
- E a tua mãe e o teu irmão?!
- Sou sozinho.
- Eu conheci o teu irmão, um rapaz com a cabeça cheia de histórias e a barriga cheia de fome.
- E que histórias lhe contou ele?
- Nenhuma
- Sabe uma coisa?! Confio em si
- Sinto-me honrado.
- É?
- Mas sei que nesta conversa falta uma coisa, uma coisa essencial para que este mundo haja alguma justiça, falta verdade meu caro.
- Apetece-me esmurrar-lhe o nariz.
- Conta-me a tua vida, durante o tempo que ainda cá estiver terei algo para me entreter.
- A minha vida tem o mar profundo e um amor eterno.
- Se continuas assim o teu destino é um poço escuro.
- Cada qual trata a solidão como quer… neste jogo não há regras, é morrer e deixar morrer.
- Estou comovido.
- Olhe o que é que você faz na vida?
- Sou fotógrafo num jornal em França e dentro de dias parto para o Sudão.
- Você já fotografou a porcaria que há dentro de si? Que sabe você de dor?! Que sei eu da dor de cada um?!
- Ninguém sai ileso desta merda.
- Dá-me um cigarro.
- É tabaco forte.
- Daquele que arranha a garganta
- Desse mesmo.
- Ontem estava com a minha Mariana, enquanto olhava o céu pensava como seria viver por lá, sem ninguém a chatear, só eu e ela, outro dia tive essa sensação, até perguntei à miúda: ó Mariana achas que há limões por lá?

Hoje vou confessar-me ao mar, pedir-lhe que me conte as partes ocultas da humanidade. Não sei se ele entende o meu francês, mas o que é importante é que ele consiga desvendar estas vidas pobres e vergonhosas, estas vidas ao mesmo tempo grandes e portadoras de uma beleza silenciosa. Que o mar consiga contar-me o segredo de todas estas vidas como quem arranca a crosta ás feridas e vê o sangue a jorrar como água cristalina saindo da alma.
- Você está a pensar em quê?
- Estava a flutuar pelas ruas e pelos olhos.
- Eu também costumo flutuar.
- Tens muito pó a flutuar nas veias.
- Também tenho uma borboleta tatuada.
- As borboletas e a morte é uma estranha combinação.
- A música é como a morte dizia-me um chulo.
- Como a morte?!
- Toca-nos e abandona-nos ou fode-nos e nem sequer nos paga. Você está quase de partida não é?
- Parto no domingo.
- No sábado tenho um baptizado.
- És católico?
- É da tradição.
- Que coisa estúpida a tradição.
- Que conversa a sua…
- Que tem?!
- Não gosta das festas, não gosta do vinho, das mulheres e das putas a chorar e do sermão do padre e do bacalhau e da barriga cheia e do som dos peidos a ecoar pela cabeça cheia de tédio.
- O que é que andas a ler?
- Puta de nada.
- Não te irrites.
- Já li um romance…
- Qual?!
- Crime e castigo.
- Também já li quando tinha dezoito anos.
- Você vem ao baptizado?
- Vou ser baptizado pelo mar.
- A minha Mariana vai levar o vestido mais bonito, todos vão cegar de tão bonita.
- Quando estás no mar costumas escrever-lhe?
- Nós trocamos poesia entre nós, já sonhei que escrevia no mar e que o vento lhe levava noticias minhas.
- Não leves a mal a minha pergunta, mas porque é que consomes heroína.
- É por causa da dor.
- A dor está dentro de todos, dos ricos dos pobres, as plantas tem dor, os animais tem dor, todos temos dor.
- Mas a dor de se sentir perdido, de não perceber a existência…
- Não és o único, embora a tua dor te cegue.
- Todos estão cegos.
- Em parte é verdade, andamos todos a consumir uma droga qualquer, não nos basta a plena vida, temos que inventar novas diversões.
- Estou a deixar, por enquanto ainda me sinto invencível.
- Queres dar uma volta pela cidade?
- Está uma noite quente.
- Lisboa tem um nome feminino, deve ser por todas as mulheres serem quentes…
- Eu sou de outra cidade.
- Sou de uma ilha chamada santa Maria
- Já vives por cá há muito tempo?
- Desde os catorze.
- Porque vieste?
- O meu pai era pescador, um dia escondi-me no seu barco e quando me descobriram já não me podiam mandar embora.
- Depois ficas-te em Lisboa.
- Fiquei com o meu pai e a seguir ele mandou dinheiro á minha mãe para vir, aquilo por lá era uma vidinha de miséria.
- Aqui é pior?
- Estar preso é pior, mas as ilhas estão em toda a parte.
- O teu pai ainda é vivo?
- Morreu á sete anos de cirrose.
- Deixou de trabalhar?
- Voltou á ilha e andou por outras, mas voltou pobre, o mar não tem ouro.
O vinho era o ouro do meu pai.
Cláudio seguiu até ao hotel, no seu bloco de notas apontou dispersos pensamentos, não conseguia dormir, não sabia que fazer dos dias restantes. Pegou no telefone e ligou para o aeroporto, queria saber a hora exacta em que partiria o seu avião. Momentos depois de ter desligado o telefone tocou.
- Sim!
- Já ouviu o som de uma faca a cortar
- Vicente que conversa é essa
- Encontrei o último soldado
- O ultimo soldado?
- A morte.

Cláudio leu a notícia no jornal. No dia seguinte conheceu Mariana, ficaram mudos a olhar-se, entre eles estava o mar.

Lobo 06



publicado por relogiodesacertado às 22:42
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