Segunda-feira, 17 de Outubro de 2005

...

Segunda parte.
Regressámos ao rio. Na aldeia a romaria chegava ao fim e nós nos entregávamos a um recomeço de vida relegando as forças do trabalho ás forças da natureza.
- Aqui podíamos construir uma casa disse Jasmim arrancando a casca a uma árvore.
- Achas que consegues sozinho?
- Com muita paciência, com o alimento que o rio me der e o amor dos teus olhos a acertar-me o peito terei o dobro das forças.
-A madeira desta árvore parece rija observou Cristina escavando na terra que é o chão daquelas tranquilas águas.
- Vou recitar um mantra disse Jasmim.
- Um mantra á nossa senhora do Rosário?
- Vou recitar um mantra ao homem vento para que quebre as suas raízes.
- E que mantra é esse?
- É o som da água a correr
- E como se pronuncia esse mantra?
- Tens de saber assobiar como a água do rio ao entrar nos canaviais.
- Não acredito em truques de magia.
- A magia da vontade é credível, com a magia da vontade farás uma casa e com a vontade das mãos abrirás sulcos na terra para o nascimento do pão. Estou a citar um poeta Chinês do século II prosseguiu Jasmim
- Pode ser que haja magia em tudo
- A magia é o empreendimento do coração.

E mal acabou de dizer aquilo encostou a cabeça ao tronco da árvore e recitou o mantra dedicado ao trabalho, repetiu ele o tal mantra durante sete dias, durante esses dias alimentaram-se de peixes e de vegetais comprados no mercado da aldeia. Nesses dias Jasmim usava o barro que vinha misturado na areia e com ele moldava pratos e outros utensílios para a confecção dos alimentos. Cristina usava o barro para tratamento da pele
- Estás á espera de alguém? Perguntou ela
- Estou á espera de um anjo.
- É ele que te vai ajudar a construir a casa não é?
- Ele vai abençoar o lugar.
- Que vais fazer agora?
- Vou cortar esta árvore.
- A madeira dela dará uma boa cama para nos deitar-mos, nela faremos amor e teremos filhos que vão nascer no corpo dela, ela será a nossa cama, a nossa casa, o fogo para a comida e o calor para o frio dos Invernos.

Jasmim e Cristina trabalharam na construção da casa. Iriam fazer um chão de pedra e o resto da estrutura em madeira. Antes Cristina fez um preparado de algas para tratar a madeira dos ataques dos bichos.
- Sabes, podíamos ir á aldeia buscar alguém para nos ajudar.
- Não gostava de ver isto invadido de pessoas.
- Podíamos falar com o rapaz Romeno.
- Achas que nos ia ajudar?! Ele anda ocupado com a sua música e não me parece muito forte para este trabalho.
- Podia tocar para nós, ajudava a passar o tempo.
- Vêm ai alguém disse Jasmim
- Olá disse o rapaz Romeno.
- Costumas vir até aqui? Perguntou Cristina
- Costumava vir pescar e dar uns mergulhos.
- A água é limpa
- Vocês estão a construir aqui uma casa?
- Estamos!
- Neste lugar há espíritos.
- Já os viste.
- Nós os ciganos sabemos que existem.
- E sabes que espíritos existem aqui?
- Acho que espíritos animais e o espirito de um homem que morreu numa guerra que se travou aqui.
- Devem ter morrido muitos.
- Ele era um pastor, estava a guardar as ovelhas quando se viu cercado por um grupo de soldados famintos, mataram-no a ele e ás ovelhas. Comeram as ovelhas e deixaram-no a apodrecer.
- - Tens medo deste lugar?!
- Se permanecesse aqui durante a noite…
- E de dia não tinhas medo?
- Não!
- E porque tens medo de noite?
- Não sei explicar… mas só de pensar as pernas tremem-me.
- Quando era pequena contavam-me aquelas histórias que de noite tinham aquele efeito na imaginação. Um efeito de aventura misturada com medo e curiosidade.
- A minha avó conta que de noite os espíritos dos mortos entram nos nossos olhos durante o nosso sono.
- E que fazem eles?
- Brincam!
- Brincam?!
- Fazem o jogo do assusta.
- Tu não eras mesmo capaz de ficares aqui sozinho?
- Com a minha musica talvez.
- Tocas á muito tempo?
- Desde os quatro anos.
- E aprendeste com quem?
- Com o meu avô que vendia galinhas e era espírita, ele mexe-me os dedos quando estou a tocar.
- Gostavas de ficar aqui connosco?
- Gosto de andar… tenho a casa nas pernas.
- Mas tu tens uma casa!
- Sim, mas ando a voar, quando morrer hei-de escapar do céu
- Nós queremos ficar aqui um tempo, ter um lugar para habituar os olhos, criar laços, raízes.
- E depois?
- Depois desamarrar-me.
- A minha avó quer que me case, ela diz que o casamento é a casa do amor e que as mulheres que não são da nossa raça andam fora da graça de Deus


continua
publicado por relogiodesacertado às 19:00
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