Terça-feira, 18 de Abril de 2006

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Vais começar a voar. Na margem do rio inicias-te o exercício do voar. Voar não é apenas um dom, é uma forma de educação, de conhecimento espiritual. Nós guardamos este conhecimento nos sonhos. Anjos e pássaros  voam, além destes as máquinas  e o peso não é uma desculpa para não se voar. Nós não voamos porque o peso nos prende á terra, nós criámos   raizes , voar é uma capacidade, não é por si uma coisa importante. Sentir os pés no chão, o calor e o frio, ter a sensação da energia a fluir sem ficar preso ou dependente deixa-nos espaço e liberdade para decidir e para transformar. Foste até ao jardim de Gautama , com o matemático  aprendeste as formulas matemáticas , com o agricultor as épocas de cultivo e com o teu silencio interior a escutar a chuva e a meditar. Meditar com as folhas de ch á o teu corpo e a tua mente flutuam na á gua, os cheiros dos frutos e das ervas entram em ti enquanto ficas ocupada a espalhar o fumo na sala onde era costume o buda repousar ou simplesmente ficar no estado de não existência. Preparas o chá o vento bebe-o, a terra também absorve gota a gota o fogo e a água  do chá

No jardim de Gautama há  uma erva, no mercado da aldeia há  um homem que vende dessa erva. Antes de fazeres o exercício da arte do voar tu respiras os seus vapores, ficas imóvel e vês o Gautama a caminhar para ti. 

Tu não queres fazer a conversa comum mas a conversa comum, o rio que corre, o sol que brilha, a nuvem que passa, a criança que nasce, a vida a morte. Gautama vai sorrir e os olhos abertos dele vão saudar os teus.

- Bom dia

- Está  a chover.

A água  e a terra são irmãs.

- Venerável  gautama pensas que com  a água e a terra posso aprender a formula do voar?

- A capacidade de voar est á em ti, es tu. Voar é reter a natureza nos olhos, é ficar com ela é ir alem dela, é ficar sem exigir nada.

- Hoje estive no mercado, andava por lá  um comerciante de chás quando era criança gostava de olhar a cor das folhas e a cor amarela da á gua do ch á recordava-me o rio amarelo e as suas histórias e canções.  gostava de adormecer com a cabeça deitada nos seixos e de ouvir o meu irmão mais velho a recitar os mantras enquanto chapinhava nas poças. A água  a saltar era o sorriso dele a molhar-me os pés.

- Sabes! A á gua cristalina ó sorriso do Buda das cinco ervas.

- E quem é o  Buda das cinco ervas?!

 

- O Buda das cinco ervas é o  comerciante que viste no mercado.

- Mas buda não tem o caminho do negócio.

- Os nomes das coisas são só o  nome das coisas, buda tem o caminho da abundância , do negócio prospero do coração, não h á o bom e o mau fruto, nem a boa e a m á árvore, h á o fruto que o teu sabor precisa, h á a á rvore que espera o viajante, o peregrino, o pastor, o negociante, o generoso e o avarento.
- Vou preparar um chá
- Faz um chá  de folha de figueira, tritura bem as folhas, estas devem ficar pequenas como as gotas de chuva, depois fazemos a oração do chá e lemos os salmos do Buda das cinco ervas.
- Vou ferver a á gua, olhar a nuvem que se desprende do vapor, talvez apareça no ar o génio do chá dos desejos.

Enquanto preparavas o chá  Gautama adormeceu, durante a sua viagem ao inconsciente da natureza ele viu o génio do chá dos desejos. O génio do chá  dos desejos tinha as duas partes da natureza. Gautama foi recebido por ele. Na gruta onde morava o génio havia uma mesa e sobre ela um bule de chá. O génio ofereceu ao senhor Gautama o chá do enlouquecer. Gautama sentou-se no chão, segurou uma pequena taça dourada e sorveu de um gole todo o chá  depois sorriu, estendeu as mãos ao céu, alcançou uma estrela e pô-la na á gua do chá

Ele viu a noite e os planetas, não sentiu medo nem viu monstros ou com o seu olhar transformou essas criaturas em ilusão. O génio olhou Gautama , depois desapareceu, logo apareceu no monte sagrado e venerou toda a linhagem dos budas, das árvores, dos pássaros s dos homens de todas as cores, de todas as sabedorias e ignorâncias.

 

Quando Gautama regressou da sua viagem, tu penteavas os cabelos e o vento massajava-te o rosto. No ar havia o aroma ainda quente do chá. Gautama serviu-te uma pequena taça e pôs as folhas de chá nos cabelos. O vento tocava no galho das árvores e parece que saia uma musica suave, o aroma do chá  misturado no aroma da musica. Enquanto bebiam o chá, sentiam um silêncio puro. Quando estamos com demasiados pensamentos o ar também fica pesado. Gautama levou os seus olhos ao firmamento dos teus, havia um calor e uma cor diferente do calor do fogo. As palavras não aconteceram, não aconteceram os desejos, o amor aconteceu e nada estava preparado pela vontade do corpo e da mente. Como as raízes se entrelaçam na terra vocês se entrelaçaram. Uniu-se o pequeno coração do corpo ao coração da terra ao coração do universo. Os teus lábios e os lábios de Gautama tocaram-se. A noite chegou tranquila e bebeu os restos de chá que sobrou das taças. Tu e Gautama seguravam nas mãos uma luz, tinham um arco irís que passava das mãos aos olhos.

Moonli continua a exercitar-se no oficio do voar. Moonli é o teu nome, na lingua dos antigos habitantes da montanha a palavra do teu nome significa aquela ou aquele que faz o ritual. quando fores capaz de esvaziares os pensamentos, as tuas riquezas e as espalhares pele terra, tu não possuindo nada, tu não estando sujeita a nenhuma condição ou a nenhuma lei a natureza entra em ti e tu voas. Tocas o céu e a terra. Abraças o pássaro, abraças a árvore, dás-me um abraço forte. Quando me abraças é a tua energia que trabalha o meu ser como as sementes que trabalham cada poro de terra, cada poro da pele. Gautama foi o teu amante espiritual, mais tarde encontraste cabelos compridos, cabelos compridos fazia musica, a musica também é um exercicio que prepara os seres para a magia do voar, com o som é possivel voar, com a vibração das pedras, com a vibração da luz. Cabelos compridos passa muito tempo a tocar citara, a musica da citara é doce como cerejas. Quando Moonli preparava o chá a musica entrava no vapor e eles e as crianças sentiam vontade de dançar. Com a dança nos unimos á força do silencio e á força da palavra, a dança harmoniza a luz e a escuridão. Quando escrevias dançavas, quando pintavas executavas o voo das aves, sentias o esvoaçar das flores no ar na água do chá, na linha dos dedos que adivinham o passado e o futuro, o amor e o trabalho. Vais começar a voar, vai ser preciso que a eternidade entre no teu ser, que o teu ser faça voar o teu corpo com o impulso da memoria que é o impulso da criação, o impulso da arte de criar e de viver, a arte do morrer e do renascer. Quando preparas o chá, quando preparas diferentes variedades, quando sentes os teus olhos a terem a cor do chá diluido na atmosfera tu ficas feliz, pareces uma criança, brincas e no teu faz de conta, na tua profunda imaginação esqueces as palavras sérias e as responsabilidades mundanas. Tu precisas da energia flutuante da vida, concentra-te no teu sorriso, no desabrochar da tua flor. Cada ser tem uma flor guia. As petalas das flores são os diferentes caminhos, os diferentes cheiros que tu inalas e que a floresta inala de ti. Tu, cabelos compridos, as crianças, o Buda Gautama, o espirito que corre no vale, que abençoa cada pedra, que é testemunha dessa magia prodigiosa, dessa pulsação da mãe terra que acompanha a respiração dos bichos, dos homens, de todos os seres, esse ser que medita, que ondula como uma folha na água do chá. Foi  com a água do vale que preparas-te a prece para o começo do voar. A tua barriga está a crescer, um pequeno ser voa no teu interior, um pequeno ser que vem de uma gota de energia que desce do céu á terra e se envolve com os elementos, elementos que formam um corpo, uma mente. Tudo será conduzido pelo espirito, a grande alma que não tem principio nem fim, que guarda dentro dela mesma a decisão do bem e do mal.
- A montanha elevasse acima dos teus olhos cabelos compridos.
- Há muitas luas atrás subi aquela montanha, vi homens que procuravam ouro, estavam cansados e isso via-se no rosto deles, um dos homens perguntou-me onde ficava a aldeia mais próxima, tinha por lá um velho familiar que em tempos tinha trabalhado numa loja de chás provenientes do Paquistão. Ele seleccionava as folhas que eram expostas ao luar. A lua minguante dá sabor e é bom para fazer sonhos tranquilos.
- Vem deitar-te comigo
- Estou cansado, o meu espirito viajou como a lua cheia que segue as nuvens.
- Sabes ler as mensagens das nuvens?
- É como ler as palavras da água.
- Temos de meditar nas lágrimas de Buda, os agricultores algumas luas antes da colheita visualisam as lágrimas do precioso. A terra será fertil e os frutos abundantes.
- O fruto de mim, o fruto da terra que há em mim alimentará o amor, o amor do espirito, do corpo que o recebe e do pensamento que realiza o conhecimento. Longo foi o inverno, cabelos compridos partiu em busca de alimento e de agasalho, levou com ele o moinho das orações. Cabelos compridos não se despediu de moonli. Do outro lado da montanha ficava o mar, no porto de shiva grande era a azafama de pescadores descarregando e salgando o peixe. Durante muitas noites e muitos dias cabelos compridos alimentou-se de raizes e frutos silvestres. A terra foi o chão onde dormiu e antes de se deitar praticou a quinta essência do yoga, cem vezes se prostrou visualizando a roda do samsara, o circulo da morte e do renascimento. Ao longe ouviu-se o uivo frio dos lobos, ouviu-se ao longe o andar do rebanho fazendo rolar as pedras, remexendo a terra, as suas sementes, as suas raízes. Os pés descalços do pastor amaciando o solo selvagem. Levi o pastor andava guardando as suas cabras desde os sete anos. Cabelos compridos sentiu a terra mexer, a cor do céu vestiu os seus olhos e o seu corpo. Durante dez dias apenas bebeu água, alimentou-se do frio que descia do desfiladeiro e dos ruidos invisiveis do fogo que se esconde nas pedras, nas nuvens escuras do céu, no carvão que dorme na garganta do vulcão.  Levi atravessou o rio com as suas cabras. Naquele lugar havia o veneno das serpentes e o polen das flores de ópio sobre a planta dos pés da Deusa Maya a Deusa da ilusão, a conselheira dos generais, aquela que presta favores ao mundo material. Levi tinha agora 14 anos, conhecia todas as suas anteriores vidas. Levi atravessou o rio com a arte de quem não se move, com a tecnica da morte. Assim iludiu a senhora da ilusão e as serpentes venenosas. Levi cantou os mantras e namorou a senhora ofertando-lhe o cristal das pedras e o brilho das areias aquecidas pelo sol forte. Levi o pequeno pastor projectou diferentes seres com oigem no seu ego e com o esplendor das riquezas temporarias fez a Deusa Maya tropeçar na sua própria ilusão. Levi o pastor tinha a visão apurada da águia, viu cabelos compridos e telepaticamente falou com ele.
- Chamo-me Levi.
- Chamo-me cabelos compridos.
- Não és um peregrino!
- Sim, também sou um caminhante.
- Que procuras?
- Procuro o grande mar.
- Tens ainda muito caminho a percorrer, olha, quando chegares á próxima aldeia pergunta pelo velho Gatso o pescador, quando o encontrares diz-lhe que vens da minha parte, pede-lhe que te ensine a arte da pesca, tu lhe ensinarás as posições do yoga e as mil maneiras de preparar o chá, o sagrado chá que aquece o coração do Buda das cinco ervas.
- Como sabes que sei a linguagem do yoga e a arte de preparar o chá?
- Escuto o vento e tudo o que o vento sussurra as águas guardam e as árvores da floresta quando o vento lhes sopra a brisa do oceano e as histórias de amor, de raiva, de sobrevivência.
- Vamonos encontrar?

- Em breve.

cabelos compridos chegou de noite á pequena aldeia de patcha- luna. A casa do velho Gatso era forrada com argila e o telhado coberto de palha. Gatso o pescador estava á porta de casa consertando a sua velha rede de pesca. Cabelos compridos aproximou-se dele

- Venho da parte do jovem Levi.

- Falas-te com ele?

- Falámos telepaticamente.

- Que me queres?!

- Aprender a arte da pesca.

- Tens de treinar a paciencia.

- Podes ensinar-me...

- O próprio mar te vai ensinar, a floresta, a montanha, o dia e a noite tem muito para te ensinar.

- E tu?

- Eu estou velho, a unica mestra que me pode ensinar é a morte.

- Aprendemos todos com ela sobre o renascer.

- Vejo que estás cansado e com fome, em cima da mesa há uma tijela com caldo de peixe.

- Vou comer um pouco e deitar-me.

Cabelos compridos foi acordado pelo ruido do vento.  O mar estava eriçado, parece que tinha a furia dos homens em guerra, parecia que tinha dentro dele um coração a bater acelarado. Cabelos compridos passou algum tempo observando o velho Gatso construindo e consertando as redes. A primeira aprendizagem foi o treino dos olhos, os olhos e a mente treinadosno oficio da atenção. Cabelos compridos tinha de conhecer o mar, conhecer-se a ele próprio, o seu conflito interior era sentir-se dividido não obstante ser a parte e ser o todo. Cabelos compridos e o velho Gatso partiram numa manhã que era o dia do aniversário do Buda Shakamuni o senhor das forças. Foram muitos meses de mar, meses de tentar não lembrar aqueles que deixamos em terra. O mar testava os nossos apegos, a nossa resistencia. Em forma de doença a morte se escondeu no corpo de cabelos compridos. Cabelos compridos parecia que tinha mil demónios dentro dele. O velho Gatso entoo o mantra da levitação e com o poder vibratório desse mantra flutuou sobre a espuma e sobre as mãos invisíveis do Sr shakamuni aquele que conhece a profundidade e a escuridão, a luz e a superficie. Durante quarenta dias cabelos compridos ficou cego. A sua cegueira foram os seus desejos os seus pensamentos de luxuria. Esses pensamentos não eram sua essência. Maya a senhora da ilusão era a sua mestra. Na natureza tudo pode ser o nosso mestre. A flor que desabrocha e o raio que fulmina.

O velho Gatso pousou sobre a sombra de cabelos compridos, uma sombra escura, fatalmente escura deu lugar a um foco amplo de luz.

- A febre baixou

- Que me aconteceu?

- Entras-te  no reino dos demónios.

- Quem me salvou?

- Ninguém, tu próprio sais-te da escuridão, quanto mais te dividias mais nas trevas penetravas. Quando tomas-te consciencia que a causa da tua ignorância, que a causa do teu medo estava em ti reconciliaste-te com os teus demónios e eles copnverteram-se no Deus supremo que há em ti.

- Mas disses-te que entrei no reino das trevas...

- Os medos que a tua mente guarda são uma porta que recebe todos os lixos, o medo é uma porta que que se fecha, quando abres essa porta esse lixo sai. Através de ti aprendo a arte do yoga.

- Aprendes comigo a arte do yoga?

- É verdade.

- Como pudeste aprender com o meu medo, com a minha insegurança.

- Com a divisão descobresse a unidade, com o medo a ter-se cuidado e com a incerteza a reflexão.

- Mas...

Tu não vences os teus medos se lutas com eles, essa é uma luta inutil. Tu aceitaste-os, tu transcendeste-os.

- Penso que o mar me lê o pensamento, ele sabe que não há tempestade em mim.

- Ele aceita a tua fúria, a tua calma. Tu foste guiado até mim para que eu pudesse partir.

- Aonde vais?

- Vou deixar o meu corpo

- Vais morrer?

- Como as lágrimas saiem dos olhos o espírito sai do corpo.

- E quando é que isso vai acontecer?

- Quando me esqueceres. A morte chega quando nos esquecemos de alguém.

- Não me consigo esquecer de ti.

- O que a tua mernte esquece o teu coração guarda.

 

Numa noite de profundo silêncio em que ele cabelos compridos estava calado como se não houvesse dentro dele pensamentos e dentro dele fosse uma folha a flutuar e a subir até desaparecer do horizonte, o velho Gatso deixou o corpo. Agora tens de esquecer, qualquer recordação é um iman que puxa as almas ao mundo dos desejos, ao mundo fisico dos apegos e das paixões. Cada ser tem de seguir o seu caminho, fazer a sua vontade. Acende um pau de incensso, depois lança o corpo dele ao mar e esperas-te que os abutres descessem do céu e devorassem o corpo do velho. Decorrido um ano cabelos compridos regressou a casa. A  sua pequena filha chamavasse Gosmim que em sanscrito significa aquela que não deixa murchar a flor. Cabelos compridos pegou a pequena ao colo, da sua barriga ouviasse o mar.

- Venham para dentro chamou Moonli.

- Estamos a conversar com o céu e com a terra. O céu e a terra guarda o nosso amor e a oferenda do nosso trabalho.

O pastor Levi caminhava agora na direcção da casa de cabelos compridos. Levi queria saber como tinha sido a vida deste com o velho gatso. Até á casa de cabelos compridos eram muitas margens de rio, muitas linhas de terra. Levi caminhava sózinho, tinha feito algum dinheiro com a venda das cabras. Levi tinha um objectivo: Abandonar o trabalho, a familia e seguir a natureza de gautama, renunciar aos apegos e viver como um monge mendigando de porta em porta.


 

 

publicado por relogiodesacertado às 17:05
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Quarta-feira, 5 de Abril de 2006

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 Voltei ao tempo do rio, ao tempo em que o rio se ajoelhava como um imperador inclinado aos teus pés. Ainda tens na tua memória aquela expressão o rio está  á porta, agora os teus olhos parecem rebanhos a pastar na margem das tuas recordações. Abres a caixa de costura e escolhes um botão para pores na tua saia azul. Regressaste da tua viagem à casa dos teus pais. A tua mãe que tinha a profissão de fazedora de bolos agora vende caixas de plástico  da tapawere , a tua mãe é um agente secreto, a tua mãe anda metida no terrorismo das caixas de  plastico, ela anda toda pintada, tem os olhos carregados. Desde que o teu pai morreu que ela carrega na pintura, que foi duas vezes à discoteca e apanhou uma valente bebedeira. Tu ficaste preocupada com ela, querias protege-la como se ela fosse porcelana, imaginaste que uns homens maus, uns marginais iam abusar da tua mãe. Tu não és uma gaja conservadora mas acontece aquela fase em que queremos ser o rei do nosso rei. A tua mãe também usa as calças rasgadas e anda a aprender danças de salão, o seu par é um Argentino de meia idade que depois das aulas convida a tua mãe a beber ch á preto enquanto ele saboreia o seu rum com limão e começa a contar-lhe o azar dele com as mulheres, que gostava de levar a tua mãe para a Argentina, que ele era dono de muitas terras mas que gostava de possuir o céu dos olhos dela, ele a dizer isto numa conversa fiada a tua mãe a escutar com muito interesse e a interrompe-lo com um; e depois? Ela a ficar com os olhos arregalados como uma criança que só com os olhos faz derreter um gelado.








Est à s a arrumar o quarto, o quarto acumulou alguma poeira, passas os dedos no ch ão nos moveis, fazes um traço de poeira e tens um arco iris e tens uma aranha gigante a contemplar o teu arco iris, a comer gulosa essa poeira acumulada nos moveis, nos livros, nas arcas. Pensas em piratas, achas que a tua mãe encontrou um pirata Argentino, que um dia ele a vai empurrar, que ela vai cair no poço ou cair nos braços, se os braços forem de apertar e de dar calor. Mas tu não confias nesse Argentino, mas tu que tropeças-te nas proprias pernas, que acertaste umas coisas e falhaste outras. Se a tua mãe se apaixonar, o bonito, o verdadeiro dessa paixão é não desistir, mesmo que seja engano a á gua pura continua a ser pura e se ela tem sede mesmo que a á guaseja imprópria a sede dela e a á gua  que h á nela, a verdadeira intensão não a pode magoar ou perder. Gostavas de ficar sentada junto ao rio, parece que o rio não envelheceu, não lhe encontras uma ruga. Fizeste trinta anos e parece que te sentes com a idade de Abraão. Começas  a sentir vontade de criticar tudo e todos, gritas, perdes a paciencia, choras até tranbordar e nessas alturas tenho medo de te tocar e ao mesmo tempo não quero ficar indiferente, talvez arranje um pretexto, perguntar-te como vão de saude os teus bichos daseda. Sei que perguntar isto é um disparate, j á não tens idade para coleccionares bichos da seda, mas isso da idade, sim a idade é mais um peso na balança ou cada qual rouba no peso, seja como for quando est á s assim dificil de descrever é melhor não te fazer estremecer.








O velho Argentino e a tua mãe juntaram os trapos, a tua mãe sabia que ele era um malandro, mas o mundo com as suas guerras, os seus crimes, os seus casos de corrupção também é um malandro e nós sempre acreditamos quie o mundo vai mudar, que h á uma parte dele que faz sonhar. Carlos o amante da tua mãe conquistou-a com o perfume das orquideas, nunca ninguem lhe ofereceu orquideas assim. Tu foste ao casamento deles, foi um casdamento civil, o copo de á guafoi l á na colectividade, foi uma cozinheira velha também Argentina que confeccionou a comida. Tu provaste pela primeira vez comida argentina, conhecias a musica de Piazola, o futebol do Maradona a a banca rota, tu j á sabias que aquele amor era pobre, ele tinha uma pequena reforma e algum dinheiro que tinha conseguido no jogo. A tua mãe sabia que o seu D. quixote era um batoteiro, a tua mãe amava aquele batroteiro, gostava do cheiro a rum das suas roupas. O teu padrasto estava sempre bem disposto, a tua mãe gostava de comparar ele ao teu pai,. Entre vinte anos a ser parte da decoração e agora ser a devoção de um pobre Argentino. Ele gostava dela, Carlos escrevia poemas de pé quebrado, poemas de amor e salsa. Quando ele lia aqueles poemas a tua mãe sentia-os como se fossem os melhores poemas do mundo, ele próprio se gabava deles, que a tua mãe era a unica que os compreendia. A tua mãe ficou com ele metade dos anos que esteve com o teu pai. Ele Carlos o batoteiro romantico não conseguiu  fazer batota com a morte. Os ultimos meses da vida dele  passou-os a confessar-se á tua mãe como o ladrão arrependido das escrituras. Se a tua mãe tivesse um sorriso tão forte capaz de abrir um buraco na terra, capaz de o trazer de volta á vida.





A tua mãe passa horas a falar dele, agora dorme na sala porque julga que o espirito dele anda a vaguear no quarto, ela também ouve o barulho do baralho de cartas a bater na mesinha de cabeceira. Tu queres levar a tua mãe ao medico, os vizinhos acham que devias levar a tua mãe  







 







ao centro espirita, que j á houve um caso de um espirito bebedo que dormia nas escadas, era o espirito de um marido que em vida só conseguia declararsse bebedo. Tu achas os teus vizinhos umas criaturas malucas embora desejasses  perguntar se era possivel comunicar com a alma dos bichos da seda, saber se eles tinham menssagens do alem para ti.

 

Tu decidiste não levar a tua mãe ao médico, nem leva-la ao centro espirita. A tua mãe não vai atacar ninguem na rua, a mania da perseguição vai passar-lhe















publicado por relogiodesacertado às 15:22
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Segunda-feira, 3 de Abril de 2006

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O rio não está á</a></a></a></a></a></a></a></a></a> porta... disses-te isto quando te despedis-te,  costumavas faze-lo de uma forma mistica. Que significa o rio não está á</a></a></a></a></a></a></a></a></a> porta? talvez que ele não esteja do lado de fora, que ele esteja dentro de ti e seja a alma do teu corpo. Vais viagar até ao outro lado da cidade, o comboio é lento e cada movimento da vida, cada processo de descoberta e de entrega é no entanto o vazio onde é possivel depositar a surpresa.Vais ficar uns dias com a tua familia, vais tentar o começo, não vai ser propriamente um nascimento, nem o refazer da tua vida, não vai ser preciso saldares contas. O instante é precioso. Antes de ires apertas a minha mão. Quando eras criança olhavas para as mãos dos velhos e fingias que vias os bichos da seda, que a terra era um bicho da seda sujo, a terra que esfregavas na cara. A tua mãe passa horas a fazer bolos, uma boa dona de casa sabe fazer bolos, o teu pai reformou-se da advocacia, gosta de fumar charutos e costumava humilhar a tua mãe á</a></a></a></a></a></a></a></a></a> frente dos convidados. O teu pai foi o predador da tua mãe, o teu pai queria que tu tivesses ido para a faculdade de direito e tu seguiste antropologia. O teu pai nunca deu valor a coisas doces, sempre se iludiu com riquezas fugazes.  Tu costumavas ficar sentada a ver a tua mãe a cozinhar, achavas engraçado quando ela se punha a contar os tostões, quando se punha a resmungar com os tachos e com as panelas. Tu não percebias como é que um cristão como o teu pai andava sempre a crucificar a tua mãe, a desvalorizar a sua comida e a comer o corpo dela á</a></a></a></a></a></a></a></a></a> noite, a limpar-se ao corpo dela como a limpar-se aos guardanapos depois de comer lagosta ou carne de porco.  O teu pai agora está doente e a tua mãe está sempre com ele, não está com as injustiças dele, com a prepotencia dele. A tua mãe não é vitima de coisa nenhuma. A tua mãe, tu, eu, as pessoas, os pássaros, os cães, nós somos atingidosporque estamos no meio. A tua mãe no meio do teu pai e ele no meio de uma solidão. Não quero chamar o teu pai de monstro, o teu paié o seu próprio monstro. Já o viste doce, não aconteceu sempre mas já aconteceu que o teu olhar o tocou. Ele falava de ti com orgulho, tu eras uma pedra preciosa, é certo que tudo se baseava no estatuto, na posição social. Tu já te perguntas-te sobre a posição social dos bichos da seda. Quando passeavas no jardim com ele e ele te dizia para não mexeres em porcarias. Agora se voltasses lá descobrias que é ele, que és tu, que somos nós que fazemos porcaria, que somos o estrume, o fogo que ora aquece ou que ora queima. Vais partir, estás sempre de partida, encontras-te contigo sem regresso. Quando faziamos amor, no nosso amor estavam subjacentes as guerras, as invejas mesquinhas, a gota transparente e a nodoa. O nosso conflito é a motivação para ultrapassar a morte, para o sentido da vida. Na tua viagem vais recomeçar leituras antigas, talvez encontres alguem que se pareça a um dos personagens, talvez lhe perguntes as horas, cada um pode ser a tua voz interior. Na tua viagem não leves na bagagem mais peso, ou leva o peso necessário. O peso e a levesa deste cotidiano, os encontros que o desejo exige serem de uma perfeição rigida quando tu ficas na imperfeição, no deixar ir, voas quando não tens a intenção, os outros chegam a ti e tu sentes o poder que faz funcionar o desinteresse. Se for possivel guardar todos os momentos da tua vida, mesmo os mais dolorosos numa caixa de bonbons, se a tempestade tiver o sabor do chocolate, um sabor amargo doce, o caos que irá inspirar o teu paraiso vai fazer com que o andar no arame não seja assim tão fatal, assim uma coisa tão tragica. Quanto  mais a vida for apróximada ao teatro, quanto mais a dor cair sobre ti e o prazer cair na mesma proporção mais depressa conseguirás o caminho do meio. Quando estiveres com o teu pai pega-lhe na mão e sopra-lhe até ele não reconhecer o monstro. O teu pai é uma flor com dentes. O teu pai, a tua mãe, os que trabalham, os que se espreguiçam, todos nós somos aprendizes, todos ensinamos algo, damos sentido a algo, acreditamos nem que seja por breves instantes numa verdade absoluta. O rio não está á porta, tu entras-te no comboio, abriste uma garrafa de champanhe ou fui eu que tenho uma imaginação muito fertil, que me ponho a inventar histórias romanticas, a olhar o céu e a ver chover champanhe.

 

lobo 06

publicado por relogiodesacertado às 21:47
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O vagabundo é um poema e também a terra o cão magro e a lua. A poesia não se esconde só nos livros, também há no prato vazio da comida, nas roupas sujas e nos olhos palidos dos consumidores de coca. O vagabundo é um poema, o poema tem uma parte flor e uma parte lodo. O cão cheio de pulgas é um poema, a mistura da lama e da água, da nuvem azul e do grão de poeira também é um poema.

O vagabundo é um poema e por ser sujo e cheirar a maresia e por isso nos fazer voar nós voamos, voamos de tanto beber. Fazemos um poema, um barco de papel e sorrimos. O poema está na rua, o poema abre as pernas. Vou lamber o poema, o poema é a minha puta.

 

lobo 06

publicado por relogiodesacertado às 03:05
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Domingo, 2 de Abril de 2006

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Agora a palavra não é mais que o som perdido e triste ou feliz e perto da flor sobre a nuvem e sobre o coração.

Preciso de fugir e de não ter medo, de não ter a palavra e só ter o pão e a água.

 

Agora a palavra não é mais que o olhar

mais que ir e que ficar.

 

No fundo não é precisa a palavra para se tocar no corpo e fazer do céu e do chão e de tudo o que fica á volta. A nossa direcção e a essencia

do que não sendo acaba por ser a paixão mais absoluta.

 

lobo 06

publicado por relogiodesacertado às 19:09
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Tu tinhas o luar dentro da boca e amesma boca cheia de sangue e de flores. E dentro da tua boca a cal dos muros e alguem perto de ti acendia-te um fogo dentro do sexo e dentro dos olhos.

 

Tinhas o luar dentro da boca e a mesma boca cheia de sangue e de esperma.

 

Tinhas nas pernas a boca que te rasgava e te possuia.

 

Tu tinhas o luar dentro da boca e a mesma boca cheia de mel e de uma morte feroz  como uma certa angustia.

 

Tu tinhas o luar dentro da boca e tinhas a água a chicotear-te os olhos.

 

Os meus dedos no teu sexo e a terra nas tuas mãos sujas e ensanguentadas como uma pedra solitária á margem do rio.

 

Tu tinhas o luar dentro da boca e a boca cheia de sangue e de flores.

 

A minha lingua era uma espada sobre a curva do teu sexo. O teu sexo a flutuar na minha boca e os teus olhos cheios de esperma e de espuma..

 

lobo 06

 

publicado por relogiodesacertado às 12:36
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Tu meu amor
apenas tu meu amor
os gestos como que a desenhar as nuvens
como as curvas do teu corpo
como um fio suspenso sobre a noite e sobre a respiração.

Tu  meu amor
apenas tu meu amor.

Agradeço por seres o meu outro lado
por sentir o teu outro lado
tu meu amor esta alegria de haver um sol
a brilhar entre nós
de haver uma chuva torrencial a cair muito forte e a brotar verdadeiramente
o que está de essencial na terra e no coração.

Tu meu amor
apenas tu meu amor
aquela pedra no meio da água faz o nosso amor mais forte
aquela luz sobre os nossos olhos e aquela escuridão
faz o nosso amor ainda mais próximo da liberdade
ainda mais dentro do peito
e mesmo sendo uma dor mais forte
o amor, o nosso amor
o amor universal
o absoluto amor dos bichos e das pedras
o amor que está na nossa solidão e no modo de cada um comungar
cada gota de água e cada migalha de pão.

Tu meu amor
meu grande amor
onde não te encontrar sei que estás mais perto e és mais forte.

Tu meu amor
apenas tu meu amor
aquela pedra no meio e aquele gesto e tudo o que nos fere será abençoado por nós
e tudo o que nos amarra será abençoado por nós.

O nosso amor
o amor no modo completo com que imaginamos tocar a terra
com que sabemos estar com com outros quando não estamos com os outros
e descobrimos que isso é o mais doce amor

Tu meu amor
apenas tu meu amor apesar do cansaço e apesar da tristeza.

Tu meu amor
meu pequeno e grande amor
pequeno amor das sementes
pequena gota de água
profundo oceano, profundo amor em cada batimento, em cada ritmo, em cada fluir de sangue e de energia.

Tu meu amor
apenas tu meu amor.

Estarei sózinho
e não estando de modo algum estarei contigo quando perto da minha sombra estiver a árvore a comungar da água e a água a receber o sol quando provamos o fruto, quando sabemos que a nossa existencia é uma forma passageira de a partir do nada chegarmos á eternidade.

Tu meu amor
apenas tu meu amor.

lobo 06

publicado por relogiodesacertado às 02:48
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