Sexta-feira, 29 de Setembro de 2006

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Tenho fome!

Não seria capaz de dizer isto ao policia da rua. Pode ser fácil olhar um católico nos olhos quando ele vai a entrar na igreja arrependido de pagar fiado, de cumprir excrupulosamente os deveres fiscais e atirar-lhe assim de rompante esta exclamação: Tenho fome!

Depois oiço-o:

Coitado, pobrezinho, foi para isto que Deus criou os pobres para nós comer-mos bifes de vaca com tomates biológicosda horta e alfaces verdinhas como a pele de um marciano.

Toma dois centavos e compra duas gotas de água. Tens fome? Há quanto tempo andas nessa vida, isto é uma igreja, nao é um restaurante, mas com a fome não consegues distinguir uma igreja de um restaurante, olha que não é dificil, o restaurante tem um garfo a igreja uma cruz, não é dificil perceber isto. Achas que te vou matar a fome, chego-me a ti e mato-te a ti, á tua fome á tua sede, á tua sabedoria e á tua ignorancia e fica tudo resolvido. Tu és mesmo pobre, não tens nada ou seja tens fome, há quem seja tão pobre que nem fome tem, havia um homem que se tinha despojado de tudo, não tinha um carro de luxo, nem uma torneira de água quente, nem um charuto para fumar depois de ler poesia. Olha não penses em comida, pensa em livros, não em livros de gastronomia, pensa, vou comer uma carta de amor, pensar no amor dá-te fome, então pensa que estás a lamber os selos das cartas, que tem um sabor a morango. Desculpa está na hora da missa, o padre vai falar na multiplicação dos peixes. Ma olha isto é uma igreja.

lobo 06

publicado por relogiodesacertado às 17:36
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Quinta-feira, 28 de Setembro de 2006

pao de sabor de terra

Pão de sabor de terra

e terra de sabor de homem

Diz-me a que horas se levanta ele para a guerra

e de que serve as canções que canta de manhã

se de noite não vem a tempo para adormecer.

 

Pão de sabor de terra e terra de sabor de homem.

Porque tem o homem a terra e passa fome e porque tem o céu e não é livre.

 

Pão de sabor de homem

e homem de sabor de terra e de sabor de chuva, uma madrugada inteira de beber e de chorar

e de errar o tiro no pé da vida.

 

Sabor de pão

sabor do homem no sabor da mulher

no sabor da criança

e no sabor do cão que corre na sala

a morder a vida

a ladrar a nossa vida

obediente e comoda.

lobo 06

publicado por relogiodesacertado às 13:52
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Quarta-feira, 27 de Setembro de 2006

...

A poesia não vos merece ou merece sem distinção pedras flores e bichos, no regresso a casa o poeta encontrou pelo caminho a sombra das árvores, conversou com elas uma conversa simples, dessas que se tem depois da pausa do café, o murmurarda rádio, a desculpa de que nada se faz porque está chuva e que nada apetece e que tudo vai ser o mesmo que sempre foi. O poeta a falar com as arvores, a olhar nos olhos a perceber na natureza o intimo dos homens

 

lobo

publicado por relogiodesacertado às 12:43
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Segunda-feira, 25 de Setembro de 2006

os velhos poetas

.Costumo olhar os velhos, imagino o planeta dos velhos. Cesariny o velho poeta aquele que põe as palavras no lixo, os cães a bocejar e as crianças do bairro cagadas até á medula. A poesia é esta vida escandalosa, a casca da fruta no meio da rua e dos ratos e do queijo e do vocabulário que nos mastiga os ossos. Os poetas, os velhos poetas gostam de se coçar, a caneta coça o papel e o rio se coça na margem da terra e os velhos poetas continuam a ser almas divertidas e tristes como uma gota de chuva sobre a montanha gigante. Quando o poeta era criança o seu poema era a sua forma de adormecer, agora dorme pouco e bebe até esgotar a paciencia das palavras. Com quantos homens dormiu Cesariny? Lisboa é a sua cidade, a sua puta mais intima e mais desejada. Que bom seria não haver significados, não haver coisa ou sujeito para desejar e que tudo o que está no exterior fosse o orgasmo que nos fizesse tremer o corpo, mas já que me desejas que isso não seja um limite para me possuires como a raiz que sobe ao tronco da árvore e que depois vai ter com os homens á paragem do autocarro e lhes come o pão e o livro que trazem no bolso. Disseram-te que o poeta era sujo, sabes que a primavera cheira a sujo e que os gatos se sujam no carvão e nas flores. A melhor e a poesia mais profunda anda na encoberta luz das almas infelizes, a saudade é um previlegio das almas infelizes.  Um dia as almas infelizes serão anjos. Nós lemos nas folhas de outono o interminavel diário dos que não encontram rumo na vida. Abris-te as mãos, as mãos como quem cava a terra e arranca um molho de dias e de cheiros e de gotas humidas, depois vai pela margem limitada entre o pesadelo e os olhos semifechados daqueles que ainda não conseguiram adormecer. Os velhos , todos os velhos são poetas, isso vê-se nos olhos, no modo malandro de mexer a anca, de fazer batota ás cartas, de dar uma descompustura á vida. Cesariny  é desses poetas, um poeta muitas vezes sem comida, semdinheiro, com a roupa do corpo vestida muitas semanas. Mas os jornais e os criticos precisam desta poesia marginal, destes poetas um dia apanhados mortos no trilho do electrico, num dia desses de chuva em que um raio de sol atravessará o craneo desses poetas rodeados de gente e de estupidas pombas. Um dia sua excelência o Senhor presidente da republica chamará á sua residencia oficial o velho poeta Cesariny de Vasconcelos e lhe entregará a medalha de serviços prestados á pátria. A fome e a incompreensão é um serviço prestado á pátria. A pátria se faz de gente a morrer nas guerras ou nas valas comuns dos teatros e das tabernas. O velho poeta Cesariny que agora deve andar pela casa dos noventa e tal, poeta e pintor com dentes todos na ~cara para se rir do mundo receberá das mãos do senhor presidente a medalha do infante com honrras de musica e percurssão oficial, champanhe , peidos e muitas bandeiras. Os velhos poetas os poucos que há, que os poetas e o vinho, são os anos que dão paladar. Deixei fermentar o vinho e a poesia, deixeio-os fermentar no buraco do ventre e no buraco escuro da noite e nos olhos daqueles que andam sem pensamentos a rasgar cadernos e livros e a partir a montra das livrarias e a dormir com as meninas e com os meninos com os cabelos humidos de gel, e um dia vão nascer meninos revolucionários, que vão gostar de gel nos cabelos e de ler os livros repudiados. As crianças cultas não mais brincarão com bonecas, nem com carros de corrida, nas escadas do predio, nos elevadores, nas escolas primárias as crianças farão sexo, vão aprender musica, poesia, ciencias sexo e matemática. Se encontrarem uma lagrima no rosto dessas crianças sabem que são a nova geração de poetas surgidos das nuvens, dos ramos das árvores, das chaminés dos comboios a vapor, no guarda vestidos, em todos os sitios a poesia se cheira se come e se caga e não digam que não é bom o que cagamos porque também a porcaria do que comemos é ela por ela. Voltando á poesia, aqueles que organizam funerais e honras de morte aos poetas, os pobres coitados dos poetas que na lapide ou na biografia terão de ter uma tuberculose ou uma doença sexualmente transmissivel, é dificil que um poeta conte uma andota com piada, mas como pode esta vida desgraçada nos fazer rir. Cesariny é capaz de ser destes poetas, se ele ainda estiver vivo, se ainda gostar de escarnecer, se ainda tiver a lingua afiada gostarei de saber que ainda veste as palavras de peixeira e que abana o cu a fazer tremer Lisboa

lobo 06

coimbra

publicado por relogiodesacertado às 14:23
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Domingo, 24 de Setembro de 2006

a chuva vai escrever

Eu não fico á tua espera

mas a chuva vai-te escrever

e quando chegar a Primavera

noticias vais ler na terra.

O rio fica contigo

a falar sobre a noite

e depois da poesia

e das coisas nos teus olhos

nós fingimos os segredos

e brincamos com o medo

das palavras que inventamos.

Eu não fico á tua espera

mas a chuva vai-te escrever

e quando chegar a primavera

seja em praga ou em pequim

terá o cheiro da terra

quando me cheiras assim.

 

Mas a chuva vai escrever

noticias do amor e da guerra

do vinho que se pisa e da canção que se canta

e dentro da luz que temos e da escurião que precisamos para voltar a nascer.

 

lobo 06

escrito no porto

publicado por relogiodesacertado às 19:18
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Terça-feira, 19 de Setembro de 2006

devagar no meu corpo

Havia fogo de artificio quando estalavas os dedos. Ainda estava no sonho sentindo o teu corpo devagar no meu corpo. E o meu corpo no teu era um engano mas é melhor assim que padecer de solidão. Meu amor tão forte olhando-me escondido na cidade. Dá-me as tuas mãos o desenho da tua presença nas curvas do meu corpo levadas pelo rio. Havia fogo de artificio quando estalavas os dedos. Eu adormecia e tu acordavas com as palavras mais fortes para a sobrevivencia da minha alma te procurando. E o meu corpo no teu tao fragil como fragil ramo de arvore apaixonado pçelos homens Ainda havia fogo de artificio e dos teus dedos queimados vinha aquela musica com cheiro a vinho. E o meu corpo no teu tao fragil tao cheio de medo este modo de nos darmos sem limite de beijos e de braços lobo 06 poema escrito no porto
publicado por relogiodesacertado às 11:20
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