Terça-feira, 24 de Julho de 2012

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Observo esse sinal no corpo, não há nas penas dos pássaros sinal assim tão nítido como esse que vejo, um ponto negro que o indicador leva ao umbigo geográfico das Américas. Conheço muito bem esse continente, o comboio dos livros foi essa viagem que o analfabeto não faz, conheço muito bem essa América do norte, tenho no meu quarto as revistas do tenente gatilho e do índio trovão, as revistas misturadas com os livros de filosofia. A minha religião é o bang bang , não Senhor, não faço patifarias ou pelo menos as minhas não são tão grandes como as dos modernos soldados do império de Bruxelas. Observo esse sinal no corpo, parece um sinal luminoso, apetece soprar e ver mexer assim as asas de um insecto. Tens um ponto final e é assim o final das ovelhas, dos vitelos, dos condenados á pena de morte. A América do norte é a terra prometida, prometeram-te ouro e planícies verdejantes, o lugar das oportunidades e tu tinhas que saber domar a cavalgadura do mundo. A América do norte entrou-te no quarto na forma cinematográfica, sentado na poltrona esburacada estava o matador de índios. A espingarda do matador de índios disparava frases de circunstancia 
-Tem um cigarro
-Tenho cigarros sem filtro
-Antigamente podíamos fumar na sala de cinema
- Isso era no tempo velho, um tempo de lentidão esse
-Até as crianças demoravam mais a crescer
- Sou o homem das vacas não sou um educador de infância
- O velho oeste não tem educadores
- Tem educadores que ensinam os filhos a falar a linguagem das vacas tresmalhadas.
- Como veio até aqui?
- Havia um buraco no lençol
- Que lençol é esse?
- O lençol dos sinais de fumo.
- Entrou então pelo buraco do lençol?
- Sim e como devia ter entrado?
- Por aquela janela!
- Custa-me a subir, á medida que a idade avança vou perdendo a agilidade.
- Não é essa a ideia que dá.
- A responsabilidade é dos duplos, eles fazem tudo.
- Sim menos as cenas de amor.
- Os filhos do meu vizinho não são filhos do meu vizinho.
- Quer dizer que foi um duplo?
- Foram muitos duplos, talvez múltiplos.
- Onde está o seu cavalo?
- Está a dormir, são muitas horas a galope.

continua

publicado por relogiodesacertado às 00:54
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Domingo, 1 de Julho de 2012

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Há quem escute as vozes dos mortos na água do rio. Alguns dias depois de ela ter morrido eu ouvia vozes, o andar da água debaixo da terra e me lembrava dizer que ela tinha essa voz que também o vento tem quando passa na copa das árvores, quando lembra o viajante secreto a percorrer o quarto dos comboios onde ainda imagino que os mortos dormem.
São 4 horas da manhã, antes de passar no instituto de ...oncologia fui pagar umas contas, antes passei numa retrosaria, havia uns lenços bordados, penso que ela ia gostar de assoar o nariz aqueles lenços de linho, a Senhora da loja referiu que tinham sido bordados por uma tecedeira do minho, aqueles lenços parecia que cheiravam... ela deitada na cama exclamava que os lenços tinham um cheiro que lembrava o cheiro de alfazema. Eu ficava ali a pensar nela e naquele lugar, a ver o rio assim um velho doente desejoso de chocolates. Perguntava como se sentia, ela olhava o lenço e não dizia nada e depois eu convencia-me que as minhas perguntas eram inuteis, segurava o pulso dela, isso também fiz no dia em que ela estava a morrer, segurei-lhe a mão, parecia segurar as patas de um pássaro que não queremos que voe, eu não queria que o pássaro dentro dela voasse, eu não lhe queria permitir essa liberdade, o amor que eu tinha por ela era a bomba mais potente que ia fazer explodir as palavras, as palavras mais dificeis são aquelas que fazem falar as coisas mudas dentro de cada um. Aquela bomba ia projectar sentimentos que eu não sabia até onde iriam, não sabia até onde iriam, não sabia nada que fosse suficiente e depois de ela ter morrido não consigo preencher página nenhuma. Há dias voltei aquela loja dos lenços que imaginariamente cheiravam a alfazema, a luz do sol aviva as cores do vitral situado por cima da porta da entrada. Nunca me ocorreu falar-lhe deste vitral, as minhas conversas eram muitas vezes vazias, ela perguntava pelas crianças, as crianças estavam com os avós, eu trabalhava muitas horas, tinha de pagar as contas e depois parece que não ficava nada nem um pássaro no céu. Estava previsto que ela ia para casa acabar os dias,uma semana antes o pano se fechava, a equipa médica telefonava com urgencia como se o momento da morte fosse tão decisivo  como o momento em que se nasce. Eu estava vazio dentro do quarto e o quarto vazio dentro de mim, aquele era um dia de sol mas eu preferia que fosse uma tarde  de chuva ia conseguir ficar triste, nestas ocasiões fico frio, tenho de ouvir uma canção ou lembrar momentos muito antigos ou inventar um drama de um estranho... as minhas lagrimas pareciam ter secado, precisava meter a mao no fundo do meu poço e extrair a agua que comove, ela comovia-me por toda a vida que eu acreditava existir dentro dela, nem sempre reparava nisso, ficava muito tempo na imobiliaria, ficava com pouco tempo para viver as coisas que queria e as coisas que gostava, a morte dela parecia dizer-me que nao valia nada a vida que estava a viver, as contas que se pagam nao pagam o verdadeiro sentido que devia ser uma felicidade propria, nao o plano que foi preparado para nos oferecer um conforto que se ira transformar na condiçao mais incomoda das nossas vidas. No dia do funeral alem dos meus filhos e do meu pai estava tambem o meu chefe, cumprimentou-me - as minhas condolencias disse ele acrescentando depois que podia ficar uns dias em casa, ele ja tinha passado um momento assim com a morte de uma pessoa da familia, se precisa-se de alguma coisa...
publicado por relogiodesacertado às 17:19
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