Domingo, 9 de Outubro de 2005

...

Despir os olhos é um acto subtil. Sabemos que o corpo é uma paisagem, sabemos que despir os olhos é uma completa entrega á nudez. Despir os olhos é deixar o nu fluir como uma corrente de água sem haver pedras que impeçam a passagem. Os olhos nus são as palavras simples, os olhos nus lêem as mãos e a relação delas no caminho da insinuação do sexo. Uma parte da naturesa é o segredo que faz bater o coração, que faz despontar a música, qualquer som que estimule o prazer, que estimule aquela vibração universal.
Cristina olhou-o. Debaixo dos pés dele passava o rio.
- Alguma vez deixas-te entrar água no pensamento
- Quando a minha língua me sai da boca é um fio de água, um fio de desejo, uma forma de me expressar no teu corpo, de te arrancar sensações, sentir de retorno toda a vida contida nos elementos.
- Quando faço amor a terra guarda-me o cansaço.
- Entrega-te a mim tão livre e absoluto como te entregas á terra.
- O sexo é uma reza, acto mecânico e poético.
- Como o esvoaçar da borboleta, como o voar do avião enchendo de fumo o olhar incrédulo da tribo perdida de palavras e silêncios e rica de uma poesia que não é percebida por nós.
- É a nuvem desflorando o anjo.
- Que fazias se um pássaro te poisasse dentro da vagina?
- Aprendia a voar.
- Como é que aprendias a voar?!
- Com o orgasmo movimento das asas e das ondas
- Um pássaro na vagina fazia-te voar?!
- Achas-me louca?
- Loucura é pensar o prazer.
- Aquele homem triste á margem rio deve ser desses.
- Desses?!
- Desses que pensam sobre o prazer.
- Adormecer é não pensar.
- E não pensar é uma forma de morrer que sustenta os olhos.

- Os olhos sabem o segredo da morte. Quando era criança e olhava para dentro da água do rio parecia que mergulhava os meus olhos num olhar profundo e largo. Não imaginava que houvesse a morte, nem segredos que um dia alimentassem as minhas viagens.
- Todas as viagens são um único momento.
- Tudo é um único momento, o resto serve para não cansar a sobrevivência.
- Pensas que a felicidade é um único momento?
- Depende do que houver para navegar, de que estrada para caminhar, de que aventura para correr.

- Escuta o vento! Quando tenho frio ele é a linguagem no meu corpo.
- É uma abordagem romântica.
- Tu também és a linguagem no meu corpo.
- Sou?!...
- Quando nos possuímos.
- Vamo-nos cobrir com os nossos corpos.
- Podíamo-nos deitar no chão…
- Penetrava-te tão profundo como uma raiz.
- E eu recebia-te tão doce como uma flor.
- Achas que estamos apaixonados?!
- Amo-te
- Estás muito quente, a cor do teu corpo ilumina o céu
- O fogo da guerra também.
- A guerra quebra o silêncio pesado do nosso corpo.
- Adormece comigo.
Ele fechou os olhos. Sentia o trigo a ondular, sentia a seara a despentear-lhe os cabelos.

A madrugada ia longa, se não fossem certas recordações, se não fosse haverem corpos fecundando vidas e vidas multiplicadas no intuito de habitar lugares, de povoar livros, de fazer crescer espanto nos olhos e calor ao coração aquele seria um lugar deserto.
- Vamos atravessar o rio sugeriu ela.
- Gostava de ficar deste lado.
- Dizem que do outro lado há trabalho.
- Que trabalho?!
- Guardar gado, vigiar o sono do rio.
- Não me apetece trabalhar, podemos comer frutos silvestres e beber a água do rio, os nossos filhos serão educados a deixarem a terra serem a amamentação deles.
- Preciso de trabalho, tenho de ir na direcção do fazer, o fazer transforma o amor.
- Vamos fazer o trabalho nos nossos corpos.
- Vamos atravessar o rio. Tenho desejos de vinho, de ir a uma taberna e ouvir as novidades.
- Estou preguiçoso.
- Pareces o sol a dormir no vinho.
Depois partiram. Havia um pequeno barco atado a um salgueiro.
- Vamos ter uma viagem longa.
- As viagens podem ser tão curtas ou tão longas como a vida.


No outro lado do rio, na aldeia próxima havia festa.

- É a festa do vinho.
- Imagino que deve durar um sem fim
- Há anos conheci uma rapariga que me falava de já ter recuado ao período Romano.
- E que contou ela?
- Coisas picantes…
- Mas que coisas?!
- Orgias entre imperadores e ciganas de estrada, contou-me ela que se encharcavam de vinho e se besuntavam com mel.
- Acho que no tempo deles era mais vinho e veneno.
- Ela contou-me também que naquele tempo tinha sido prometida a um mercador, um emigrante fenício que negociava artigos de vestuário.
- Tu achas a sua história verdadeira?
- As mulheres podem não ter histórias convincentes, mas da boca de uma mulher bela há de certeza uma bela história, um enredo apelativo.
- O teu porte machista acha que nós as mulheres não somos convincentes, mas fique o senhor meu rei a saber que em toda a península ibérica, se não se encontrar ouro, com a palavra sedutora das mulheres se encontrará ardil para derrotar o orgulho dessa raça com duas bolas de presunção nas calças.
- Fui infeliz.
- Muito infeliz.
- Foi o efeito do vinho. Tu disseste que eu era um sol deitado no vinho.
- Estás perdoado.
- A corrente do rio está com força.
- O vento também empurra, em breve estaremos do outro lado.
- É possível que demoremos um dia
- Tenho vontade de fazer amor
- Também me apetece a mim, mas com o balanço tenho medo de cair á água.
- A água deve estar quente.
- Se o barco se voltasse molhava o meu vestido ás flores.
- A água fazia crescer outras flores no teu vestido
- Vejo uma flor a crescer nas tuas calças.
- É uma Primavera incontrolável entregando-se escandalosamente á natureza.
- Vem
- Aperta-me a cintura, aperta-me com força. Que o vento e o rio nos lance ao corpo um do outro.

Aquele dia preenchido de amor embora fosse apenas um dia parecia eterno como é quase sempre a sugestão que o amor transmite ás criaturas apaixonadas.
- Estamos a chegar.
- Estou a escutar a música, parece uma música popular
- Vamos beber vinho num copo de barro!
- Vamos procurar um lugar para beber e comer.
- Sabes uma coisa.
- Não.
- Apetece-me carneiro no espeto, comia um carneiro inteiro. Gosto do cheiro do fumo que sai das brasas.
- És uma predadora…
- Sou uma faminta por homens e por bichos.
- Vamos entrar naquela taberna.
Os dois sentaram-se a uma mesa que estava encostada a uma janela que dava para a rua. Aproximou-se deles um homem gordo com uns bigodes de escova.
- Que vão comer?
- Para mim pode ser uma dose de carneiro e um jarro de vinho tinto.
- E para o senhor?
- Gostava de lhe perguntar uma coisa?
- Sobre o quê?
- Qual o nome desta festa?
- É a festa de nossa senhora do sítio, fazem festas no sítio da nossa senhora.
Quando o taberneiro se afastou, Cristina aproximou a boca do ouvido do seu companheiro.
- Eu sou a tua nossa senhora.
- Queres festas no sítio?
- És muito engraçado.
- E tu és a minha nossa senhora insaciável.
- Ainda te excomungo.
- Estou com fome, espero que não demore.
- Acho que já vêm ai
- Já sinto o cheiro.
- Vou-me entregar apaixonadamente ao meu bife de vaca.
- Gosto do aroma da carne de carneiro. A propósito já viste um carneiro a fazer amor?
- Não, nunca vi! Como é?
- Ʌ
- É o que?
- Delicioso.
- E o que tem de delicioso ver um carneiro a fazer amor?!
- Um dia deitado na erva outro deitado no prato.
- Que crueldade!
- Já não me amas?
- Agora sou um apaixonado entregue às hormonas do bife de vaca.
- E eu não mereço a tua atenção, não mereço o teu apetite.
- Quando acabar-mos vamos á romaria.
- O meu vestido ás flores tem nódoas de gordura.
- Podes trocar de vestido.
- Não é preciso, gosto de dançar com as flores a baloiçar ao som da música e ao cheiro da gordura.
- Tens flores de gordura desenhadas no vestido.
- Pois tenho. Olha diz-me uma coisa.
- Sim
- Sabes dançar a valsa.
- Lembro-me de ver a minha avó dançar.
- E ela dançava bem?
- - Tão bem que os meus olhos ficavam trocados.
- Foi há muito tempo que a viste dançar?
- Era muito miúdo mas recordo com muita nitidez uma ocasião em que a vi rodopiar no pátio como se ela fosse um cisne a bailar num lago.
- Queres dançar a valsa comigo.
- Precisamos de musica…
- Estás a ver aquele rapaz com o acordeão ao ombro
- Aquele que está encostado á porta.
- Esse.
- Que têm?
- Podíamos pedir-lhe para tocar uma valsa para nós

Cristina lançou um olhar ao rapaz. Ele coxeava de uma perna e o seu andar parecia o oscilar de um barco.

- A senhora quer que eu toque uma música.
- Sabes tocar valsa?
- Cigano romeno sabe tocar bom.
- Mas sabes tocar valsa?
- Valsa é como fazer chuva.
- Olha toca uma música para nós dançarmos.
- Ele é seu marido?
- Não
- Toca qualquer coisa com ritmo pediu Jasmim, assim se chamava o companheiro de Cristina.
- Vou tocar uma moda Romena da minha aldeia.

E o rapaz Romeno começou a tocar e havia um grupo de Alemães que ia poisando e levantando as canecas de cerveja acompanhando o subir e descer da música. Jasmim e Cristina começaram a dançar, os seus corpos executavam todas as danças como um cocktail de sabores, como empreendendo num único rumo todos os destinos.
- Os teus pés parecem asas
- Não é nada.
- Estou com vontade de olhar o céu, neste momento as estrelas devem estar a dançar, estão recolhidas do olhar dos homens.
- Vamos pedir a conta!
- Vou dar algum dinheiro ao rapaz.

O rapaz estendeu a mão e fez um cumprimento.
- Senhor! Chamou Jasmim acenando ao taberneiro.
- Querem mais alguma coisa?
- Traga-nos a conta.
- São 7 euros tudo.
- Aqui tem.
- Vocês dançam muito bem
- Ele dança muito bem.
- Parece um bailarino profissional comentou ele com um sorriso a sair dos bigodes.

O fogo de artifício percorria o céu. Cristina e Jasmim seguiam de mãos dadas. Do outro lado da rua seguia solene a procissão. O rio também ia em procissão, o rio era o santo padroeiro dos primitivos crentes do amor. No andor seguia nossa senhora do rosário, o rosário das nossas vidas, das nossas histórias, um rosário de orações tão completas como a vibração do nosso sexo. Quer fosse a festa de nossa senhora do sítio ou festa de nossa senhora do Rosário guardaríamos no templo do nosso coração aquela noite tão quente e tão a ferver no sangue apaixonado deles.
- Já viste os olhos dela?
- De quem?
- Da santa.
- E que tem?!
- Parece que tem olhos de chover.
- Ela é a nossa senhora do Rosário e tu és um rosário de poesia.
- Achas que sou uma miúda divertida?!
- Fazes sorrir a tempestade.
- Já fizeste amor num dia de tempestade?
- Não sei se já aconteceu, presumo que nos dias de tempestade devemos ser sexualmente activos.
- Vamos regressar ao rio.
- Queres fazer amor debaixo daquela velha árvore?!
- Já escutei de um monge que não se deve fazer amor debaixo de uma árvore.
- E porque não
- O espirito da árvore não deixa passar a corrente, o fluxo de prazer.
- Deitamo-nos á margem das águas, tu tocarás a minha pele e tocarás a água, sabes que sou a tua Deusa.
- Sei.
- Hoje podíamos ficar numa pensão, amanhã seguiríamos na nossa pequena embarcação.


Naquela noite ficaram no r/c de uma pequena pensão, além deles havia um casal Francês de uma idade já avançada.
Ela entrou no quarto, acendeu a luz e começou a despir-se, despia-se lentamente, a luz da rua insinuava-se na sua transparente camisa de dormir. Agora completamente despida deitava-se na cama recebendo Jasmim esperando que ele lhe servisse absoluto e inexplicável prazer.
- Penetra-me bem fundo.
- Deixa-me lamber-te os seios, quero encher-te do meu néctar.
- Quero-te todo dentro de mim.
- Quero ser fodida, sou a tua vagabunda.
A seguir Jasmim pegou-lhe nos cabelos e levou-lhe o pénis á boca. Ela saboreava-o com tal avidez que quando sobre a cara lhe caiu uma nuvem de esperma o bebeu como se estivesse embriagada de vinho. Ele percorreu-lhe o corpo, ia subindo até ás orelhas, descia ao pescoço, ondulava com a cabeça enfiando a língua entre a vagina e o ânus, Cristina soltava gemidos tão fortes que parecia que o seu amante tinha um poder que só a terra, que só a água é capaz de dar. Aquilo não era só prazer carnal, havia muito mais, era a liberdade de se possuírem, era aquele grito que o corpo precisava de dar. Cristina e Jasmim adormeceram exaustos. Sonhando Jasmim que estava falando com a velha árvore.
- Fala-me do que significa sentir prazer?
- As árvores não sabem o que é prazer?!
- Só conhecemos o vosso prazer sexual, quando os humanos fazem amor debaixo de nós, nessa ocasião roubamos o vosso prazer.
- Que queres saber?
- Quero saber o que sentem?
- Não sei como descrever…deve ser perguntar ao rio como descreve ele o calor daqueles que mergulham nas suas águas, será que o rio olha guloso o corpo das mulheres?!
- Muitos se sentam debaixo de mim com filosofia e eu só quero que me fales do teu prazer, segreda-me os palavrões que dizem um ao outro.
- Estou a ficar embaraçado…

De repente sentiu um toque no ombro.
- Durante a noite estavas agitado.
- Sonhei com a árvore do rio…
- E que sonhas-te?!
- Que ela me perguntava coisas sobre o prazer sexual.
Queria saber quais os palavrões que segredávamos ao ouvido um do outro.
- Eu não me lembro o que sonhei.
- Vou tomar um banho. Quero muita água a cair sobre mim.
- Enquanto te banhas fico á janela, certificar-me que tenho um pouco de céu azul no meu corpo.

Fim
Lobo o5







publicado por relogiodesacertado às 21:58
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1 comentário:
De Anónimo a 17 de Outubro de 2005 às 16:56
lobo, desculpa a ausencia mas ando muito dentro de mim, muito introspectiva...se estivesse no pc ia por as pedras da rua a chorar...amei esta história do jasmim e da cristina...mas até eu corei com o prazer que davam ambos á poesia...amo essa capacidade que tens de construir um castelo de fadas, dragões e duendes onde existe o olhar perdido num horizonte. Saudades tuas meu amigo. nina
(http://livejournal.com/users/avaloner2)
(mailto:alzira_guedes68@hotmail.com)


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