Domingo, 4 de Setembro de 2005

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Não sei se o olhar demora mais que o correr das águas, mais que o voo das aves ou do que o correr do sangue em qualquer parte do corpo antes do silêncio nos ferir e a morte nos adormecer. Não sei se o olhar demora mais que o vento levantando a terra, mais que o bater da chuva nas pedras ou do que o correr do sangue em qualquer parte da face de um iluminado vagabundo antes do dia escurecer e a bala no peito avisar que o destino já não lê as cartas nem olha aqueles que se contorcem com o silêncio impotente das palavras.

Não sei se o olhar demora mais que o correr das águas, mais que a musica na humidade dos dedos e mais que a desilusão na fria pedra ou do que a promessa do pão na boca pobre de quem não consegue reivindicar uma certa tristeza para uma certa profundidade do amor.

Não sei se o olhar demora mais que o correr da água, mais que o voo das aves e do que o abrir das pétalas como se fossem as gargantas que soltam todas as revoltas e que adormecem para ludibriar a morte que os espreita nas trincheiras.

Não sei se os olhares demoram mais que as aves, mais que os amantes na procura da ausência, mais do que as crianças que choram a falta do sol, mais que uma lágrima e ainda mais que uma raiz. Talvez tu sejas capaz de demorar a fé ou o amor que já não apetece nos homens quando seguem viagem e qualquer destino é uma desculpa para não assumirem que estão a envelhecer.

Não sei se o olhar demora mais que o correr da água, que o correr do sangue tão forte como um sentimento de despedida, assim um último suspiro de amor a convencer outras palavras, aquelas que caíram para o vazio de não entender os livros, nem as criaturas que vagueiam imóveis com a fraca solidão de nem serem capazes de se darem aos filhos.

Não sei se o olhar demora mais ou se tu demoras mais que a água, mais que as aves e qualquer coisa será ainda assim uma certa satisfação de adormecer fugindo a uma dor por demais atroz.

Não sei se os olhos demoram mais que o correr da água, mais que as aves e ainda talvez falte um tempo da espera. Uma gota de sangue, no pão, no corpo, num certo olhar.

Lobo 05
publicado por relogiodesacertado às 10:47
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1 comentário:
De Anónimo a 9 de Setembro de 2005 às 10:15
Nao sei se habitas sereno o inferno ou se o inferno mudou por te conhecer...não sei se devo temer o inverno ou se o Verão que trazes nos olhos durará até que o fogo da lareira se extinga. Sei, contudo, te amar e nunca exigir te ter. Sei que somos gémeos nos sentidos e nem por isso, fabricamos pensamentos iguais. BjitoNina
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(mailto:alzira.guedes@sapo.pt)


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