Quarta-feira, 17 de Agosto de 2005

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A Galinha Sinfrósia e o Galo Pimpão
No interior da província, numa colina acantonada sobre um rio, vigiada por uma branca torre sineira, que marcava o tempo e o ritmo à vida, existia uma pequena aldeia, semeada de pequenas casinhas, que desciam em tortuosas e estreitas ruelas, até um pequeno largo, onde dois dias por semana, às terças e sextas, parava a carreira, que levava à sede da Comarca.

As pessoas, na maioria idosas, viviam do que a terra dava, das vacas que pastavam nos prados e dos rebanhos que rapavam os montes vizinhos.

Quase todas as casas, eram de pedra. Num primeiro andar viviam as pessoas, no piso térreo, os animais, todos em perfeita simbiose económica e harmonia doméstica.

Adossada à casa, quase sempre o cortelho onde engrossava o porco, que dava os chouriços e presunto pelo Natal. Debaixo das escadas, o poleiro, onde se criavam as galinhas que punham os ovos frescos e davam a canja que fortalecia das gripes de Inverno e às vezes o jantar nos dias de maior nomeada ou de visitas.

Pois numa dessas casas, viveu um casal de velhos sem filhos, ela na casa dos noventa, ele um pouco mais novo, não muito, e com eles um gato lambão, de preguiçosos bigodes, meia dúzia de cabras, “só para entreter” -como dizia o velho- e um cão vadio que a velha por compaixão, acolhera.

Debaixo do balcão de pedra, tinham os velhos um desses poleiros onde abrigavam uma meia dúzia de galinhas poedeiras, outras tantas frangas em crescimento, alguns pintos e um vistoso galo, que engordavam para a festa da padroeira.

Todos os dias, pela madrugada, a velha se levantava e a primeira coisa que fazia era afastar a pedra que tapava o buraco do poleiro. Saía logo o galo, seguido das galinhas, pintos e das frangas, uma a uma, a comerem do milho que a velha espalhava no terreiro, bebericando a tempos, numa pequena pia de pedra, que por ali havia.

De papo cheio, faziam as galinhas o seu exercício matinal, esgravatando com os pintos minhocas pelo curral, aninhando-se depois, exaustas, debaixo das cerejeiras e oliveiras de canteiro, plantadas rente ao muro.

De vez em quando uma entrava no poleiro, e momentos depois um cacarejar frenético, anunciava mais um ovo, que a velha recolhia no regaço e corria a guardar na arca, entre o grão do pão, para manter fresco.

O galo, no meio do terreiro, sacudia as asas de penas verde-garrafa e castanhas, ensaiando de tempos a tempos, exibicionistas marchas marciais; e nisto passava os dias. De vez em quando empoleirava-se numa galha da macieira do quintal, esticava o gasganete, sacudia a crista e lá esganiçava um esforçado “cócórócó”.

As galinhas, todas boas poedeiras, punham por junto, uma boa meia dúzia de ovos diários, que a velha ciosamente amealhava na arca como um tesouro e depois vendia na feira mensal, para remediar as magras economias.

Contudo uma das galinhas, pintalgada a preto e branco, pescoço pelado, crista redonda e de banda, era a poedeira de eleição, a “galinha dos ovos de oiro” da velha! Punha às vezes dois ovos por dia, e pasme-se, ovos com duas gemas!

Tinha a velha grande afeição a esta galinha, tanta quanta a aversão que nutria pelo inútil galo.

A velha que tinha a mania de a tudo por nome, chamara ao gato de “lambão”, ao cão de “vadio” e até ao marido, que tinha umas carnes secas e chupadas de cara, de “bacalhau seco”, pôs à galinha o nome de “sinfrósia” e ao galo, de “pimpão”.

Assim, quando a velha chamava as galinhas para comerem, tirava o milho dos bolsos do avental, que espalhava, aos punhados pelo terreiro, enquanto chamava:

-Pila, pila, pila, - estalava a língua emitindo um “choc, choc, choc,”,-pila, pila, pila, piu, piu, pui!

E elas vinham, debicando-se umas às outras, a disputarem o grão assim espalhado.

Mas à sinfrósia, pegava a velha ao colo, sentava-se nos degraus do balcão e com ela aninhada no regaço, fazia-lhe festas no pescoço, estendia-lhe na mão, os grãos, que ela debicava.

Cont.



de João valente

esta história tem continuação. Aguardemos.
publicado por relogiodesacertado às 19:42
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