Quarta-feira, 5 de Abril de 2006

...





 Voltei ao tempo do rio, ao tempo em que o rio se ajoelhava como um imperador inclinado aos teus pés. Ainda tens na tua memória aquela expressão o rio está  á porta, agora os teus olhos parecem rebanhos a pastar na margem das tuas recordações. Abres a caixa de costura e escolhes um botão para pores na tua saia azul. Regressaste da tua viagem à casa dos teus pais. A tua mãe que tinha a profissão de fazedora de bolos agora vende caixas de plástico  da tapawere , a tua mãe é um agente secreto, a tua mãe anda metida no terrorismo das caixas de  plastico, ela anda toda pintada, tem os olhos carregados. Desde que o teu pai morreu que ela carrega na pintura, que foi duas vezes à discoteca e apanhou uma valente bebedeira. Tu ficaste preocupada com ela, querias protege-la como se ela fosse porcelana, imaginaste que uns homens maus, uns marginais iam abusar da tua mãe. Tu não és uma gaja conservadora mas acontece aquela fase em que queremos ser o rei do nosso rei. A tua mãe também usa as calças rasgadas e anda a aprender danças de salão, o seu par é um Argentino de meia idade que depois das aulas convida a tua mãe a beber ch á preto enquanto ele saboreia o seu rum com limão e começa a contar-lhe o azar dele com as mulheres, que gostava de levar a tua mãe para a Argentina, que ele era dono de muitas terras mas que gostava de possuir o céu dos olhos dela, ele a dizer isto numa conversa fiada a tua mãe a escutar com muito interesse e a interrompe-lo com um; e depois? Ela a ficar com os olhos arregalados como uma criança que só com os olhos faz derreter um gelado.








Est à s a arrumar o quarto, o quarto acumulou alguma poeira, passas os dedos no ch ão nos moveis, fazes um traço de poeira e tens um arco iris e tens uma aranha gigante a contemplar o teu arco iris, a comer gulosa essa poeira acumulada nos moveis, nos livros, nas arcas. Pensas em piratas, achas que a tua mãe encontrou um pirata Argentino, que um dia ele a vai empurrar, que ela vai cair no poço ou cair nos braços, se os braços forem de apertar e de dar calor. Mas tu não confias nesse Argentino, mas tu que tropeças-te nas proprias pernas, que acertaste umas coisas e falhaste outras. Se a tua mãe se apaixonar, o bonito, o verdadeiro dessa paixão é não desistir, mesmo que seja engano a á gua pura continua a ser pura e se ela tem sede mesmo que a á guaseja imprópria a sede dela e a á gua  que h á nela, a verdadeira intensão não a pode magoar ou perder. Gostavas de ficar sentada junto ao rio, parece que o rio não envelheceu, não lhe encontras uma ruga. Fizeste trinta anos e parece que te sentes com a idade de Abraão. Começas  a sentir vontade de criticar tudo e todos, gritas, perdes a paciencia, choras até tranbordar e nessas alturas tenho medo de te tocar e ao mesmo tempo não quero ficar indiferente, talvez arranje um pretexto, perguntar-te como vão de saude os teus bichos daseda. Sei que perguntar isto é um disparate, j á não tens idade para coleccionares bichos da seda, mas isso da idade, sim a idade é mais um peso na balança ou cada qual rouba no peso, seja como for quando est á s assim dificil de descrever é melhor não te fazer estremecer.








O velho Argentino e a tua mãe juntaram os trapos, a tua mãe sabia que ele era um malandro, mas o mundo com as suas guerras, os seus crimes, os seus casos de corrupção também é um malandro e nós sempre acreditamos quie o mundo vai mudar, que h á uma parte dele que faz sonhar. Carlos o amante da tua mãe conquistou-a com o perfume das orquideas, nunca ninguem lhe ofereceu orquideas assim. Tu foste ao casamento deles, foi um casdamento civil, o copo de á guafoi l á na colectividade, foi uma cozinheira velha também Argentina que confeccionou a comida. Tu provaste pela primeira vez comida argentina, conhecias a musica de Piazola, o futebol do Maradona a a banca rota, tu j á sabias que aquele amor era pobre, ele tinha uma pequena reforma e algum dinheiro que tinha conseguido no jogo. A tua mãe sabia que o seu D. quixote era um batoteiro, a tua mãe amava aquele batroteiro, gostava do cheiro a rum das suas roupas. O teu padrasto estava sempre bem disposto, a tua mãe gostava de comparar ele ao teu pai,. Entre vinte anos a ser parte da decoração e agora ser a devoção de um pobre Argentino. Ele gostava dela, Carlos escrevia poemas de pé quebrado, poemas de amor e salsa. Quando ele lia aqueles poemas a tua mãe sentia-os como se fossem os melhores poemas do mundo, ele próprio se gabava deles, que a tua mãe era a unica que os compreendia. A tua mãe ficou com ele metade dos anos que esteve com o teu pai. Ele Carlos o batoteiro romantico não conseguiu  fazer batota com a morte. Os ultimos meses da vida dele  passou-os a confessar-se á tua mãe como o ladrão arrependido das escrituras. Se a tua mãe tivesse um sorriso tão forte capaz de abrir um buraco na terra, capaz de o trazer de volta á vida.





A tua mãe passa horas a falar dele, agora dorme na sala porque julga que o espirito dele anda a vaguear no quarto, ela também ouve o barulho do baralho de cartas a bater na mesinha de cabeceira. Tu queres levar a tua mãe ao medico, os vizinhos acham que devias levar a tua mãe  







 







ao centro espirita, que j á houve um caso de um espirito bebedo que dormia nas escadas, era o espirito de um marido que em vida só conseguia declararsse bebedo. Tu achas os teus vizinhos umas criaturas malucas embora desejasses  perguntar se era possivel comunicar com a alma dos bichos da seda, saber se eles tinham menssagens do alem para ti.

 

Tu decidiste não levar a tua mãe ao médico, nem leva-la ao centro espirita. A tua mãe não vai atacar ninguem na rua, a mania da perseguição vai passar-lhe















publicado por relogiodesacertado às 15:22
link do post | comentar | favorito
|
1 comentário:
De Nina a 9 de Abril de 2006 às 18:36
Lobo, linda a historia e o rumo quase natural dos personagens...e ninguém faz batota c a morte, nem a tua mãe que passa qual primavera, cheia de orquideas plantadas no colo pelo argentino. E sim, tb a vida é malandra e nós precisamos acreditar que muda. beijo da Nina


Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Agosto 2013

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
16
17

18
19
20
22
23
24

25
26
27
28
29
30
31


.posts recentes

. O gato que vê o frio dent...

. Os ratos na toca tem filo...

. Essa estrada

. ...

. ...

. ...

. ...

. A morte da mulher do Dono...

. ...

. Nas tuas mãos

.arquivos

. Agosto 2013

. Julho 2012

. Maio 2012

. Maio 2011

. Setembro 2010

. Janeiro 2009

. Junho 2008

. Maio 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Dezembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

.favorito

. ...

blogs SAPO

.subscrever feeds