Domingo, 2 de Julho de 2006

suicidio

Moro no r/c da rua do sol, sou um tipo deprimido, escrevo uns poemas e faço uns desenhos. Pensei em suicidar-me, atirar-me da janela mas agora me lembro que moro no r/c, vou subir até ao quinto andar bater á porta do vizinho e perguntar-lhe se posso olhar a cidade do cimo da sua janela. Na verdade não conheço o vizinho, sei que tem cinquenta anos e que é Alemão. Como é que se diz em Alemão posso ver a cidade da sua janela? Se eu que quero suicidar na verdade tinha muito por onde escolher mas pode ser que seja moda atirar-me de um quinto andar de um prédio velho, de uma rua velha, rodeado de uma ilha de vizinhos velhos com vidas velhas e cansadas. Subir ao quinto andar é muito cansativo, o médico aconselhou-me que não fizesse esforços, o meu coração pode não aguentar, bem subi até ao quinto andar, toquei á campainha e esperei que alguem viesse á porta. Parece que não está ninguém, pensei ir a casa buscar um arrombador de fechaduras, depois senti-me estranho, eu não sou um deliquente, eu sou um gajo que está farto da vida e que se quer suicidar. Você pergunta se não há comida que faça eu ter paladar pela vida, pergunta você se eu gosto de futebol, você acha que se eu gostasse de futebol a minha vidinha triste e pobre e vazia e fingida com o futebol seria na mesma pobre e fingida mas talvez eu nem desse por isso. Não sei o que fazer, eu devia ser uma pessoa prática, alistava-me no exercito ou entrava clandestinamente na jaula dos leões e tinha morte certa, mas se calhar os leões fizeram o mesmoi que o meu vizinho Alemão foram passar o fim de semana á terra. A vizinha do terceiro diz que ao domingo não se trabalha, o domingo é para dormir, não fazer esforços, não subir escadas, não saltar das janelas, não premir o dedo no gatilho, não bocejar. Como todo o suicida que se preze vou escrever uma carta, não vou escrever uma carta longa, ainda sou capaz de adormecer, não posso adormecer ou se adormecer irei acordar mais positivo, mais determinado, talvez o vizinho chegue e eu lhe grite no meu portugues sem palavras elaboradas que quero morrer, que me estou a cagar para os pássaros e para as nuvens e para a vista da cidade. Tenho caimbras nas pernas, não consigo subir escadas, não consigo fazer nada. Vou até aquela velha ponte e espero que caia, serei muito paciente, religiosamente paciente, pode acontecer que nada aconteça, a espectativa de se morrer ainda alimenta este filme, se eu souber o truque de me matar e o truque de me ressuscitar, gostava de imaginar que vão chorar por mim, que vão suplicar que não salte ou se calhar vão rir ás gargalhadas, esta mania de não me levarem a sério, se eu fizesse uma aposta, aposto que subo ao quinto andar, salto da janela e morro. Na verdade não tenho dinheiro mas posso apostar a minha colecção de postais ilustrados ou a minha colecção de escaravelhos ou posso fazer um discurso. Este pobre rapaz que fazia poemas e que costumava desenhar, ele que só sabia fazer isto além do esforço de respirar e da força que qualquer mortal faz quando se caga resolveu ou vai resolver ir desta para melhor. O que é que os noticiários vão falar?! O que é que se vai ler nos jornais? quem vai escrever um romance sobre mim. Matou-se no dia em que já não acreditava no céu azul ou matou-se no dia em que choveu nas páginas de uma história de banda desenhada. Gostava de me decidir sem estes formalismos intelectuais, sem esta lamechice novelesca. Antes vou beber um copo á minha saude, ironicamente vou beber um copo á minha saude, vou perguntar ao vizinho Alemão se ele pode por a tocar Wagner, se calhar o vizinho Alemão não gosta de musica, se calhar se eu saltar faço barulho, também não me vou por a dançar, não me vou armar em exibicionista, não lhe vou gritar aos ouvidos. Veja bem como é que um gajo se mata. Se quer saber se eu me matei mesmo não perca o próximo episódio

lobo 06

publicado por relogiodesacertado às 04:33
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