Quinta-feira, 19 de Junho de 2008

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Acordo... este é o tempo da paixão. As vozes da rádio, as paredes húmidas da casa e nós inventamos alguém para dançar. Julgo nunca ter escrito um diário , é possível escrever de diferentes maneiras. Quantos modos de voar existem, quantas respirações. Gostava de saber escrever cartas. Quando recebia alguma carta era como o começo de um novo amor. Abrir uma carta tem uma ansiedade parecida aquela quando tiramos a roupa para aquela primeira vez em que íamos fazer amor. No abrir da carta e no despir do outro que se vai revelando. O outro está escondido, ele é a nossa carta, nós abrimos essa carta cuidadosamente. A precipitação pode fazer explodir a nossa vida, aqueles elementos que fazem bater o coração, esses que mesmo parecendo desnecessários fazem falta a esta energia, á compreensão que serve para chegar aos outros. Não existe o falso momento, todos os momentos são verdadeiros, se os rejeitamos podemos ir á outra margem e recuperar fôlego para a existência. Tenho admiração por todos os poetas e até por aqueles que não o são, encontro em todos eles uma história para contar, uma viagem para fazer. O cheiro do papel, da cola a escorrer nos dedos, que sensação! Lembro-me dos dias de sol, de estar sentado nas escadas, de olhar a videira sobre o brilho solar dos meus cabelos louros e nesta abstracção eu profetizava que um dia havia de chover vinho. Nesse instante esperava o carteiro, todas as semanas ele me trazia o mundo de aventuras. Nunca mais soube nada do capitão América, gostava de lhe perguntar coisas sobre a morte.  É possível que o grande poeta, o grande Pablo Neruda que um dia chegou á minha infância ainda a começar no meu corpo adolescente e como um vento que sopra soprou uma canção desesperada. O desespero faz-nos começar as coisas, o desespero força o maior dos empreendimentos. Acendemos o nosso fogo interior, que não se move, que não alimenta nada e depois o desespero é como se a própria morte encontra-se forças para a vida. Penso na pobreza dos poetas, a solidão deles como se eu lhes tocasse o corpo no evocar das palavras que digo, essas que perfuram as raizes e fazem o sangue escorrer. Meus poetas é esta a minha declaração, o pão e o vinho e que coisa seria a vossa inspiração sem essas misérias?! Esses rostos magros e pálidos que a fome mostra e vós que andais no mundo da carne, da luminosa carne, dessa paixão podre e primaveril vos digo que há a suprema confiança, a construção da felicidade para a superação da morte. A imortalidade do capitão América provoca-me angustia, não lhe encontrar uma ruga, não sentir nele um cheiro a corpos caidos, derrubados pela fragilidade, gostava que o capitão América tivesse o poder de fracassar para fazer a tentativa de conquistar o mundo pela incerteza. Perguntas a direcção do mar, também a mim me apetece fugir dos homens. Antes o teu coração era forte. O teu coração estava preparado para a imprevisibilidade dos segredos.

 

publicado por relogiodesacertado às 17:33
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1 comentário:
De alzira guedes a 25 de Junho de 2008 às 17:45
Brilhante esta analogia do corpo/carta. da ansiedade de uma e de outra. De como viajamos através do carteiro, do que nos traz. E às vezes para acendermos a luz interior ou o fogo como dizes é preciso que o big bang venha ou então que se receba noticias de um amigo por carta, por mail, por telefone, em jeito de comentário ou de saudade apenas. Beijo


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