Quinta-feira, 20 de Dezembro de 2007

Tango com cheiro de alecrim

Personagens: Madalena, Juan , A velha Alba, A velha Maria de Jesus, A velha rosário , A velha Júlia .

 

 

Madalena dirigindo-se a Juan .

 

Madalena - Sai de cima do telhado

 

Juan - mãe o céu cheira a alecrim

 

Madalena - Vêm para a mesa!

 

Juan desce do telhado e corre para ela.

 

Madalena - Mostra-me as mãos.

 

Juan mostra as mãos.

 

Madalena Estão sujas

 

Juan - É do fumo, sabes mãe os aviões cheiram ao alecrim.

 

De repente batem à porta.

 

Madalena - Vou ver quem é.

 

Madalena entre abrindo a porta.

 

Madalena - Querem entrar pergunta ela olhando as quatro velhas coladas umas á s outras.

 

Velha Alba - Não conseguimos acender o fogo.

 

Velha Rosário - Nem conseguimos mexer os dedos.

 

Velha Maria de Jesus - Nem nos conseguimos benzer, ficamos na parte em nome do pai e o braço fica preso.

 

Madalena - Fiquem perto do fogo.

 

A velha Alba apontando o olhar a Juan .

 

A velha Alba - Que fazias em cima do telhado?

 

Juan - Esperava.

 

Madalena - Ele imagina que em cima do telhado consegue ver o mar.

 

A velha Alba - E que esperas?!

 

Juan - O regresso do meu pai.

 

A velha Julia - Podes cair.

 

Madalena - Ele tem a agilidade de um pirata.

 

Juan - Mãe os piratas cheiram ao alecrim?

 

A velha Maria de jesus - Essas criaturas cheiram ao fogo do inferno.

 

Juan - Estas velhas são tão tristes!...

 

Madalena - É o medo.

 

Juan - Por causa do medo ficamos tristes?

 

A velha Alba - Madalena h há quanto tempo o teu homem anda no mar?

 

Madalena - H á muito tempo.

 

A velha Alba - E desde então algum homem te cheirou.

 

Madalena - Por aqui cheira a agoiro.

 

A velha Julia - Rezar em latim afasta o agoiro.

 

Madalena - O agoiro são vocês.

 

A velha Maria do ros á rio - Nós?!

 

Madalena - Saiam!

 

As velhas vão saindo coladas umas á s outras.

 

fim do primeiro acto.

 

 

 

Mãe e filho frente a frente.

 

Juan - Mãe e se eu fosse um p á ssaro!

 

Madalena - Que fazias se fosses um p á ssaro?!

 

Juan - Sobrevoava o mar de uma grande cidade.

 

Madalena - Que p á ssaro gostavas de ser?

 

Juan - Que p á ssaro achas que eu puderia ser?

 

Madalena - Uma garça.

 

Juan - Gosto de dançar, quando estou no telhado imagino que sou aquele bailarino russo e que dou saltos no ar. O bailarino russo é um p á ssaro.

 

Madalena - Quem é esse bailarino russo?

 

Juan - É um voador, olhe esta fotografia.

 

Madalena - É muito masgro .

 

Juan - Se eu treinasse talvez conseguisse voar.

 

Madalena - Andas pensativo!

 

Juan - Penso no pai

 

Madalena - Vai voltar

 

Juan - Quando?!

 

Madalena - Quando apanhar peixe suficiente.

 

Juan - Vai tirar peixe da barriga do mar?

 

Madalena - É isso.

 

Ouvesse o sino da igreja.

 

Madalena - Agora o vento est á mais forte.

 

Juan - O vento é quem guia os olhos dos apaixonados.

 

Madalena - Vou espreitar pela janela.

 

Juan - A velha Maria de Jesus dirige-se para aqui, est á a benzer-se, agora parou. É louca.

 

Madalena - Agora est á a ajoalhar-se .

 

Juan - Estão cães á volta dela.

 

Madalena - Os cães vão aquecê-la.

 

Juan - Ou comê-la

 

Madalena - Vai l á fora e tr á la para dentro.

 

Juan arrasta a velha Maria de Jesus.

 

Madalena - Devagar podes quebrar-lhe algum osso.

 

Maria de Jesus - Venho em missão.

 

Juan - Mãe a velha est á louca!

 

Maria de Jesus - Tens o diabo no corpo.

 

Juan - Conheço a formula para afastar velhas beatas; é a formula do sacudir dos pés.

 

Madalena - Que missão é essa?

 

Maria de Jesus - Limpar os maus espíritos.

 

Madalena - Onde estão os maus espíritos?

 

Maria de Jesus - Nas tabernas.

 

Madalena - Isto aqui não é  nenhuma taberna.

 

Juan - Ninguem anda a misturar enxofre no vinho.

 

Maria de Jesus - Vamos cantar em latim para afastar o mal.

 

Madalena - Cantem em vossa casa!

 

Maria de Jesus - A nossa casa é fria como a morte.

 

Juan - Vou subir ao telhado.

 

Madalena - Que fazemos com estas loucas?!

 

Juan - É um pesadelo dificil de descrever.

 

Maria de Jesus - A mana Alba j á tem noventa anos.

 

Madalena - Que faça bom proveito.

 

Maria de Jesus - A pobre não consegue andar.

 

Madalena - Mas consegue mexer a lingua.

 

Juan - E os cotovelos.

 

Madalena - Queremos ficar em paz.

 

Maria de Jesus - Escutem o doce cantico!

 

Juan - A cantar desse modo afastam qualquer santo do bom caminho.

 

Juan sai de cena e termina a segunda parte.


 

                                                                                  3


 

Deitada perto da lareira est á a velha Maria de Jesus.


 

Madalena - Est á a dormir


 

Juan - Parece tranquila.


 

Madalena - Escuta...


 

Juan - O apito de um navio.


 

Madalena - É um navio de mercadorias.


 

Juan - Que coisas trás?


 

Madalena - Que imaginas que possa trazer?!


 

Juan - A canção do regresso.


 

A velha maria de Jesus começa a acordar.


 

Maria de Jesus - Olho as rugas das minhas mãos e lembro aquele tempo de nova, eu tinha aquele desejo de partir os vidros das janelas, de quebrar as fechaduras das portas...


 

Madalena - Desejava liberdade.


 

Maria de Jesus - Apaixonar-me como o rouxinol se apaixona pela canção dos homens.


 

Madalena - É um pensamento bonito.


 

Juan - Você era namoradeira!


 

Maria de Jesus - O nosso pai, o velho general não gostava de liberdades.


 

Juan - O amor é uma liberdade responsavel.


 

Madalena - O meu filho é um filosofo.

 

Juan - São pássaros que sobem ao meu pensamento

 

Maria de Jesus - Agora parece que é tarde.

 

Madalena - Porquê?

 

Maria de Jesus - Estou confusa, apetece-me pecar.

 

Madalena - O pecado cheira ao alecrim.

 

Juan - Mãe os olhos dela são escuros.

 

Madalena - Ela tem uns olhos bonitos.

 

Maria de Jesus - Há muitos anos eu vi Deus no corpo de um homem, chamava-se Afonso.

 

Juan - Há um rei que se chama assim.

 

Maria de Jesus - Ele era guarda águas e eu uma guardadora de silencios.

 

Madalena - Você nunca se declarou?

 

Maria de Jesus- Tinha medo do meu pai.

 

Madalena - E que lhe aconteceu a ele ao Afonso?!

 

Maria de Jesus - Apanhou uma febre

 

Juan - Mãe existe a febre do alecrim?

 

Madalena - Achas que apanhou a febre do alecrim?!

 

Juan - Vou sair.

 

Madalena - Veste um casaco.

 

Juan - Vou na biblioteca, tem lá um livro daquele bailarino russo.

 

Madalena - Não voltes tarde.

 

Maria de Jesus - Já não tenho frio

 

Madalena - Agora está menos.

 

Maria de Jesus volta a olhar as mãos e termina a terceira parte.

 

                                                                    4ª parte

 

 

Ouvesse o barulho de cães a ladrar.

 

Madalena - Parecem esfomeados.

 

Maria de Jesus - Antes eu fazia as minhs orações como um animal esfomeado, tinha fome de virtude e de castidade, mas era um engano.

 

Madalena - Parece que os cães acalmaram.

 

Maria de Jesus - Quanto mais perto estamos da morte mais faz sentido a revelação da verdade.

 

Madalena - Em que parte do mundo anda a morte, nunca a descobri nos livros de geografia.

 

Entra a musica de Astor Piazola.

 

Madalena - Gostaria de vestir o meu vestido mais colorido.

 

Entra Raul o homem de Madalena, ele é uma representação da sua imaginação.

 

Raul - Convidei estes musicos.

 

Madalena - Estou nervosa.

 

Raul - Seguro nas tuas mãos e são os meus olhos que te guiam.

 

Madalena - Porque demoras-te tanto tempo?

 

Raul - Agarrra as minhas mãos!

 

Madalena - Estão quentes como eram na primeira noite.

 

Enquanto dançam os musicos comemoram com champanhe.

 

Raul - Com o nosso melhor vinho havemos de regar o nosso melhor peixe.


 

Madalena - Pareces um cavaleiro andante!


 


 

Madalena desperta do seu sonho.


 

Maria de Jesus - Mulher estavas a falar sózinha?!


 

Madalena - É para o fogo não se apagar.


 

Ouvem-se passos


 

Madalena - É o meu filho, quando escuto os seus passos parecem os passos do pai.


 

Maria de Jesus - Já lhe contas-te?


 

Madalena - Que coisa?!


 

Maria de Jesus - Que o pai dele já não volta.


 

Madalena Depois do naufrágio nunca encontraram o corpo.


 

Maria de Jesus - Ele será sempre encontrado nos teus desejos.


 

Madalena - Venha sentar-se perto de mim.


 

Madalena abre uma garrafa de vinho.


 

Maria de Jesus - Não contes ás minhas irmãs


 

Madalena - Beba!


 

Maria de Jesus - É doce


 

Madalena - E é forte


 

Juan entra e apoia as mãos no ombro da mãe.


 

Juan - trouxe aquele livro do bailarino russo.


 

Madalena - Vem para perto da luz.


 

Juan vai-se aproximando, á medida que se aproxima a luz vai diminuindo e fica escuro.


 

                                                                         fim

 

 

Os ratos já não gostam de queijo.

 

 

Cego - Os ratos já não gostam de queijo.

 

Barqueiro - Onde quer ir?

 

Cego - A babilónia fica longe?

 

Barqueiro - Apenas quinhentas braçadas.

 

Cego - Quer que leia o resto do poema?!

 

Barqueiro - Leia para a água.

 

Cego - A água mexe.

 

Baqueiro - São os ratos.

 

Cego - Doem-lhe os braços?

 

Baqueiro - É como amassar o pão!

 

Cego - Apetece-me um cigarro.

 

Barqueiro - Os meus cigarros parecem velhos como os ratos.

 

 

 


 


 

 

 

 

publicado por relogiodesacertado às 14:45
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